A revolta dos miúdos

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A revolta dos miúdos
A revolta dos miúdos

Se Kelvin assenta na arrogância do menino mais talentoso da rua onde nasceu, Viola tem o espírito sensível e nobre de quem reage com elevação à dúvida que dói e diminui. Heróis uma noite, nada será como dantes para eles...

1 - Conta Valdano que, a meio da semana, fez a Raul uma confidência (pensava pô-lo a jogar no domingo seguinte) ao mesmo tempo que lhe mediu o pulso (perguntou o que pensava ele sobre o assunto). A resposta de quem viria a ser o melhor marcador das competições europeias, em vésperas de estrear-se pela equipa principal do Real Madrid, não deixou margem para dúvidas: “Se quer ganhar ponha-me a mim; se não quer ponha outro qualquer.” Iluminado por um clarão de inocência, Kelvin lançou os dados da relação com o meio em que está inserido. O que faz o treinador de um futebolista que, longe de ser Messi, Robben ou Van Persie, afirma ter um pé esquerdo abençoado por Deus e que, à primeira deceção, ampliou a mágoa nas redes sociais?

2 - Kelvin tem a insolência de pensar que é especial sem temer o ridículo de ver promessas transformadas em impertinências frívolas. Jogadores assim acreditam neles para lá dos limites do bom senso e vivem o drama interior do que entendem ser a injustiça, a discriminação e o exercício prepotente de uma autoridade (a do treinador) feita apenas de saber relativo. Histórias como estas, porém, conhecem momentos em que oportunidade, inspiração e confiança convergem na expressão deslumbrante de talentos negligenciados durante semanas e até meses. Confrontado com o dilema de se atrasar ainda mais na corrida para o título, Vítor Pereira preferiu Kelvin a Liedson e apostou na improbabilidade de ser salvo por um menino sem golos na Liga e não por quem marcou perto de 150.

3 - De outra massa é feito Viola, o argentino que ainda não cumpriu as referências de estrela com que chegou a Alvalade e aceitou jogar na equipa B, depois de falhar o regresso a casa, consequência da abortada transferência de Niculae. Jesualdo aproveitou para alvoroçar esperança e expectativas adormecidas num jogador por definir. Envolto numa discrição difícil de ultrapassar, Tintin é avançado de toda a frente de ataque e não ponta-de-lança. Quando o treinador deposita num jogador sem passado (um golo em toda a época) confiança para resolver o futuro coletivo compromete-se com o resultado da opção. Incinerado pelo esquecimento, Viola mostrou revigorada vitalidade e decidiu o jogo com o Moreirense. Ganhou o professor mas acima de tudo ganhou o Sporting. Dois dias depois Kelvin confirmava a revolta dos meninos excomungados.

4 - Até parece que os dois treinadores desenharam os preparativos sigilosos que precedem as ocasiões inesquecíveis. Visto de outra forma, foi como se a divina providência tivesse inventado, em 48 horas, algo que nunca acontecera na vida. O êxito de qualquer dos jogadores, que terá efeitos no modo como serão encarados a partir de agora, confirma ainda que, em situações de divergência, a razão nunca está toda do mesmo lado. Se Kelvin (19 anos) assenta na arrogância do menino mais talentoso da rua onde nasceu, Viola (21) tem o espírito sensível e nobre de quem reage com elevação à dúvida que dói e diminui; se um vive ao sabor despreocupado, insinuante e alegre do samba que lhe corre no sangue, o outro está formatado com as linhas mais retas e entrecortadas do tango. Heróis uma noite, nada será como dantes para eles.

Tudo para vencer seja onde for

Há jogadores sobre quem não é legítimo ter dúvidas: os muito bons e os muito maus

Ghilas pertence aos primeiros como, de resto, está traduzido nos 12 golos na Liga (os mesmos de Van Wolfswinkel), ao serviço de uma equipa que marcou 25 – o Moreirense que, se o campeonato terminasse hoje, desceria de escalão. O argelino, de quem se diz estar a caminho do Sporting, é um cocktail explosivo de força, velocidade e potência; de instinto, precisão, técnica e versatilidade. O golo que marcou em Alvalade acrescenta a todas as armas a habilidade para resolver em espaços curtos. Ou seja, tem tudo para triunfar em qualquer equipa.

Criar latifúndios com uma finta

É um jogador sublime e tem-no demonstrado sem hesitações. Em Newcastle exagerou

Quando joga no meio, entre a equipa e o ponta-de-lança, ganha horizonte para ser ainda mais exuberante a transformar um palmo de terreno em imensos latifúndios que se abrem como por magia. Gaitán tem a arte de, com uma simples finta ou tabelinhas em progressão, descobrir espaços inexplorados, alguns mesmo inexistentes. Em St. James Park construiu o cenário que fez dele a figura do jogo, apesar de ter cometido o pecado de falhar por duas vezes à boca da baliza. Mas quando desperdiçou a segunda ocasião, já levava 89’ deslumbrantes. A sentença do júri só podia ser uma: inocente!

Com a saúde não se brinca

Coxeava com máscara de dor no fim do jogo com o PSG, prova de que foi tudo feito às claras

Messi estava lesionado mas foi para o banco; porque a eliminatória se complicara entrou para resolver. Resolveu. No fim, todos concordaram que utilizá-lo naquelas circunstâncias tinha sido um risco, como se provou pelo aparente mau estado com que chegou ao fim do jogo – e que, afinal, não é tão grave como pareceu. Leo devia ter feito 15 minutos mas foi obrigado a jogar o dobro. A decisão remete para sacrifícios que Eusébio fez nos anos 60 e 70 pelo Benfica. Se visse hoje o joelho esquerdo do Pantera Negra, Messi entenderia o valor da máxima “com a saúde não se brinca”.

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