A selecção com Deco

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1 Porque a bola tem caprichos e só gosta de quem a trata com amor; porque a relação de lealdade não admite traições e a intimidade gera empolgamento incontrolável; porque a magia individual cria vícios cujas vítimas são os adversários e os principais beneficiados são os adeptos, Deco foi sempre, desde a infância, o mais excepcional jogador das equipas que representou. Um dia, em plena viagem, apercebeu-se dos companheiros; valorizou então o futebol como desporto colectivo e moderou os excessos; quando concluiu o processo evolutivo e o rodearam de carinho, respeito e admiração; quando o reconhecimento unânime o tornou divino para os seus e dimensionou o pavor com que atormenta os outros, transformou-se num dos mais extraordinários jogadores do Mundo. Porque o Brasil onde nasceu o rejeitou com leveza inconsciente e o pedido de naturalização foi aceite, vai jogar por Portugal com o Euro--2004 no horizonte.

2 Passado o embate das emoções antecipadas - já todos discutimos o valor de bandeira e hino; legalidade e ética desportiva; direitos e deveres de cidadania -, Deco tem pela frente o único desafio que interessa a partir de agora: inserir-se numa equipa desconhecida; adaptar-se a um todo orientado segundo a lógica da turma de escola que cresceu junta; ser aceite e compreendido por grupo suportado em história com mais de uma década, constituído por companheiros que tiveram os mesmos professores, definiram hierarquias, criaram cumplicidades e se tornaram zelosos do seu espaço; meninos que seguiram o caminho até serem reconhecidos como grandes senhores do futebol mundial, mas cuja realização plena está dependente de um grande êxito obtido em conjunto - alguns já ficaram pelo caminho. Sendo um jogador com argumentos técnicos milagrosos, Deco está condenado, à partida, a abdicar de algumas armas que dimensionam o talento que possui.

3 Rui Costa leva dez anos de avanço como administrador de jogo da selecção: marca os tempos e define o ritmo; controla a temperatura e escolhe a velocidade; acelera e introduz a pausa; tranquiliza nas dificuldades e agita no adormecimento. Sem forçar, é ele quem dá o estilo; para não ferir sensibilidades, impõe-se por reconhecimento e perfeição. Todo um estatuto que não se delega nem se retira por decreto, que se conquista naturalmente como, aliás, Deco sabe pelo papel que desempenha no FC Porto, onde é o centro da acção criativa, com influência esmagadora no colectivo. Na seleçcão, o tempo ajudá-lo-á a consolidar uma relação distinta com a equipa, por acrescentar qualidade, magia e soluções de ataque; por multiplicar a capacidade dos outros sem dispersar a liderança; por aceitar dividir funções mais defensivas, em nome do equilíbrio estrutural. Como só há uma bola em campo e as orquestras não admitem dois maestros, tudo se resume a um exercício de compatibilidade entre dois génios unidos por uma paixão comum (a bola) e pelo número 10 cujo manual sabem de cor.

4 Se esta sempre foi uma questão de ordem técnica e táctica, embora muitos lhe atribuíssem dimensão moral (pobres ingénuos, entre os quais me incluo); se estamos num País livre em que todos têm direito à opinião (Figo e Rui Costa também, se não se importarem...), o conflito à volta dos mais prestigiados jogadores portugueses do pós-Eusébio foi potenciado pela forma desproporcionada como o seleccionador reagiu às suas declarações. Ao insistir em banalidades mais próximas do "sargentão" detestável que do treinador campeão do Mundo - a propósito, há mais de 15 dias que não diz que quem manda ali é ele -, Scolari deu o mote ao rebanho habitual dos que odeiam o futebol; dos invejosos e preconceituosos cuja referência de análise são as contas bancárias dos jogadores; dos que aproveitam cada momento para expelir o ódio com que se vingam do sucesso alheio. Deco está para ajudar e não para alimentar conflitos virtuais. Aumenta a concorrência e ainda bem. Para Rui Costa é só mais um nome a juntar aos de Rivaldo, Seedorf, Pirlo, Leonardo, Serginho, Redondo, Gattuso, Ambrosini, Brocchi e Dalla Bona...

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