A sublime expressão de Tiago

Adicione como fonte preferencial no Google
A sublime expressão de Tiago
A sublime expressão de Tiago

Aos 33 anos, é extraordinário que tenha atingido o ponto mais alto da carreira e logo ao serviço de um exército de máxima voltagem como o Atl. Madrid de Diego Simeone. Surpresa? Só para quem subestimou o talento de um dos melhores médios portugueses da última década.

1. Num espetáculo altamente mediatizado, vendido como bem de primeira necessidade antes e depois da competição, ainda há equipas que se dedicam a recuperar a essência do jogo propriamente dito: defendem um estilo, não especulam e dão tudo o que têm. Ao contrário de outras artes, como a música e a poesia, por exemplo, o grande futebol pode florescer e tornar-se ganhador à volta de ideias superiores ao talento de quem lhe dá forma. O Atlético Madrid não tem os melhores jogadores de Espanha, muito menos da Europa, mas está à frente do campeonato e garantiu lugar nas quatro maiores potências do Velho Continente. Para lá da qualidade dos futebolistas, o segredo maior do êxito começa no facto de ter riscado do vocabulário palavras e conceitos como pedantismo, desânimo, cansaço, desconcentração, desistência, hesitação, medo...

2. Numa equipa que, mesmo quando não deslumbra, tem o condão de emocionar e comover por atitude e entrega, Tiago é peça fulcral. Porque assimilou esses princípios que exigem desgaste físico tremendo e não perdeu a arte de introduzir elementos como pausa, desaceleração, serenidade e coerência a processos que, não raras vezes, parecem avulsos e circunstanciais na máquina de guerra em que está transformado o Atlético Madrid de Diego Simeone. Jogador fino, com ampla visão do que o rodeia, é fundamental para dar todo o sentido à expressão de um exército demolidor na procura da bola e armado até aos dentes para o passo seguinte ao momento de conquistá-la.

3. Tiago releva os valores da simplicidade e da eficácia. Pelo caminho muitos acusaram-no de pouca determinação e robustez para o trabalho mais sujo e de soluções limitadas para desequilibrar em espaços curtos. Mero preconceito para com um futebolista da cabeça aos pés, generoso na repartição do esforço, que dá segurança ao bordado da circulação e ainda leva soluções para o toque final; possuidor de técnica absolutamente cristalina, que prescinde de protagonismos supérfluos; que dá o corpo ao manifesto, intercepta dezenas de linhas de passe por jogo e domina todas as chaves coletivas do futebol. Nos pés dele, a bola sabe que não receberá provas de amor mas também está segura de que nunca será maltratada. Ali pode descansar um pouco até levar, sempre, o destino correto. É isso: o único adorno do seu futebol é a inteligência.

4. Aos 33 anos, é extraordinário que Tiago atinja sublime expressão do seu futebol e viva um dos pontos mais altos da carreira logo ao serviço de uma equipa que é fonte inesgotável de energia, assente no orgulho pelo jogo e na paixão pela bandeira que defende; prudente na atitude sem ser tímida, simples por vocação sem ser subserviente e sedutora pelo permanente estado de superação que lhe está adjacente. A afirmação de Tiago neste exército de máxima voltagem, cujo sucesso representa a vitória de uma classe operária feliz sobre aristocracia nervosa (Real Madrid) e decadente (Barcelona), estará a surpreender aqueles que o foram acusando pelo tempo fora de leveza e pouca intensidade. Prova de que subestimaram o talento de um dos melhores médios portugueses da última década.

Siqueira para lá da competência

A primeira sensação provocada por Siqueira foi de que a lateral-esquerda defensiva encarnada deixara de ser o grave problema que muitos alimentaram nos últimos anos. Mas o tempo encarregou-se de mostrar que o brasileiro já foi muito para lá disso: a solidez global que revela e o espírito de aventura que depurou, proporcionalmente à confiança que foi adquirindo, conferem-lhe estatuto só comparável a Fábio Coentrão. Ser competente representou menos uma dor de cabeça; ser talentoso tornou-se mais uma arma para a excecional temporada dos encarnados.

Quando Josué pinta a manta

Josué não teve toda a sorte, porque a afirmação no Dragão coincidiu com a pior época do FC Porto das últimas décadas. O processo de lançamento no campeão nacional, conduzido por um treinador que o conhece bem (Paulo Fonseca), foi travado pelo substituto (Luís Castro). O jogo em Braga, no qual participou na lógica de uma gestão do plantel que o afasta do jogo na Luz, foi esclarecedor: jogou e fez jogar; travou e acelerou; aqueceu e arrefeceu. Pintou a manta, fez o que lhe apeteceu e ditou todas as regras do duelo. É o médio que mais se aproxima do 10 que Portugal não tem.

Talento superior de André Carrillo

Carrillo chegou a Alvalade muito jovem, cometeu erros e, apesar da qualidade acima da média, não convenceu totalmente os seus treinadores: Domingos, Sá Pinto, Vercauteren, Jesualdo e Jardim. Mas, ao contrário do que sucedeu com outras contratações leoninas, nenhum desvio do peruano teve como resposta a desistência do seu talento superior. Próximo de completar 23 anos, isto é, a chegar à idade perfeita para se afirmar, Carrillo continua a dar notícias animadoras. A exibição com o Gil Vicente, com dois passes para golo, confirmou que vale a pena continuar a acreditar nele.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade