Pedro Peres
Pedro Peres Master in Sports Psychology

A taça que agrada a todos

No passado fim de semana mais uma eliminatória da Taça de Portugal ficou para trás. Pelo caminho sucumbiram ao espírito próprio da competição algumas equipas das divisões superiores. Se olharmos aos últimos resultados, constatamos que das 15 equipas da Primeira Liga, quatro foram eliminadas e sete das 10 equipas da Segunda Liga também viram chegar ao fim a sua participação na prova. Com honras e regozijos da portugalidade local, permanecem em competição duas das quatro equipas militantes no Campeonato de Portugal.

Na verdade, são equipas como estas duas, o garante das parangonas dos jornais e da criação de adjetivação emblemática como "tomba gigantes" ou "aconteceu taça". De facto, é este clima que alimenta a competição e faz dela uma saudável iguaria. São estes resultados que acalentam a verdadeira componente Bio de uma prova ancestral, mas tão contemporânea e renovada quanto o é a Taça de Portugal.

Devíamos refletir um pouco mais sobre esta e outras virtudes da prova rainha, enquanto competição e muito mais que isso, como espetáculo aglutinador da adesão e manifestação populares. Acredito que, em grande medida, o sonho faz toda a diferença. A possibilidade do mais fraco fazer real oposição ao mais forte, confere às massas um gostinho particular a lembrar os célebres enlaces hollywoodescos. Aqueles onde, em forte agonia, nos agarramos às orelhas da poltrona e olhamos o televisor de esguelha, por entre o antebraço triangulado à cabeça, em desesperada fé na vitória do pequeno David perante um qualquer colossal Golias.

Se assim é, podemos deduzir escassearem em algumas outras competições, a capacidade de nos remeter para a manutenção da esperança de seguir em frente e nela estar sempre presente uma, ainda que ínfima, possibilidade de vitória. Este problema estará intimamente associado às provas maratona em que o campeão é encontrado na equipa mais regular ao longo da competição. Serão igualmente justas? Talvez sim. No entanto, no respeitante à competitividade e emotividade, não observamos nelas a mesma característica mobilizadora da nossa Taça de Portugal.

Prova disso, são as baixas médias de assistências nos estádios portugueses, mesmo fora de pesadelos pandémicos. Nas últimas três temporadas antes de serem implementadas as medidas impostas pela Direção-Geral da Saúde, a Primeira Liga, por exemplo, não ultrapassou a média anual de 50% da capacidade de ocupação dos estádios.  

Ora, como nos ensina a Taça de Portugal, será altamente vantajoso para a motivação de atletas e adeptos manter a ilusão de participações de sucesso. Justiça seja feita ao facto de ser mais fácil acreditar quando tudo se decide apenas num jogo e o segredo poderá estar em concentrar toda a crença apenas e só naquele momento.

Numa passagem rápida por aqueles que se apresentam como alguns dos maiores espetáculos desportivos a nível mundial como a NBA, a NFL, ou os Grand Slam do Ténis, no futebol, os Campeonatos do Mundo e da Europa e a Liga dos Campeões, apresentam particularidades que as afastam claramente de ser apenas provas de regularidade e, parte delas, contem até especificidades como o tempo real, substituições volantes e faltas acumuladas.

Nesse sentido, valerá a pena repensar modelos, redefinir formatos e implementar novas medidas estratégicas e experimentos competitivos que contenham a faceta de desenvolver a capacidade de superação dos atletas e promover a adesão das massas, ao invés de as aniquilar à nascença com desequilíbrios estruturais que teimam em legitimar a hegemonia dos maiores e mais fortes.

Provavelmente, uma prova com mais que apenas uma meta pode constituir um desafio mais grandioso para participantes e entusiastas. A possibilidade de se concluir uma fase numa classificação mediana e, ainda assim, desfrutar da oportunidade de lutar por lugares cimeiros da competição na fase seguinte, será um estímulo à motivação e à confiança na capacidade de fazer sempre melhor.

A proposta passa então por encontrar saídas para a monotonia das competições de regularidade e encontrar espaços e abertura para iniciativas com novas roupagens, pois o indivíduo, o desportista e os seus seguidores em particular, necessitam de manter a esperança num sucesso que mesmo parecendo estar longe pode estar apenas à distância daquele desafio em que tudo o que procuramos, pode realmente acontecer da forma como tanto sonhamos.
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