A tecnologia do bom senso
1. Numa grande instituição que desenvolveu a cultura da ansiedade, potenciou os efeitos da urgência, fez do erro uma tragédia e do disparate uma regra; num clube que passou mais de uma década agarrado à esperança que subia paulatinamente os degraus do entusiasmo e se despenhava na demagogia de discussões estéreis e promessas não cumpridas, seis pontos de vantagem, a oito jornadas do fim do campeonato, constituem um dado capaz de alterar tendências e reciclar comportamentos. A família encarnada viveu desconfiada da proposta do novo responsável e só perante a iminência de sucesso começa a dar sinais de afecto. Apanhado em pleno jejum, numa casa habituada ao fausto de outros tempos, Trapattoni achou que estava autorizado a vencer de qualquer maneira. Não estava.
2. Apresentado como treinador repressivo, para quem a obediência é mais importante do que o virtuosismo e o cumprimento das tarefas se sobrepõe à imaginação, Trap tem sido vítima dos mais diversos exageros, fruto de desconfianças, ideias preconcebidas e algumas injustiças. O Benfica tornou-se a imagem do líder: um conjunto austero na oferta futebolística, moderado no sentido de aventura, mas cuja expressão global não contraria a natureza dos jogadores – foi assim no percurso que o levou da Juventus à selecção de Itália, passando por Inter, Bayern Munique e Fiorentina. O primeiro efeito dessa tendência inestética foi chocar com a sensibilidade encarnada. Num clube que não é campeão desde 1994, a exigência plástica é apenas o sinal de que os adeptos, mesmo com fome de títulos, não se contentam com pouco.
3. O Benfica é uma equipa condicionada pelas alterações operadas no seu sistema nervoso central; bem preparada fisicamente, honesta e sem problemas pendentes de hierarquização; na qual a ordem enquadra o talento, para que os melhores se sintam mais seguros e os menos bons tenham uma rede que lhes reduza o perigo de erros fatais. Com independência de razão dos resultados (em oito meses já foi milagreiro, incompetente, charlatão e génio), Trapattoni escolheu como tecnologia de ponta o bom senso e a avaliação do meio circundante. Depois foi só aplicar o saber acumulado; virar costas ao debate público diário por cada decisão e reagir com indiferença aos assobios. Sabendo como ninguém que, nesta sociedade de aparências, a imagem tem quase o mesmo valor dos actos.
4. Giovanni Trapattoni é um treinador estrito mas ambicioso, experiente mas actualizado, que orienta a sua acção de comando para construir equipas unidas, organizadas, inteligentes e profissionais; que resistam à euforia das facilidades mas não se intimidem perante os obstáculos mais difíceis; que não tenham vergonha de sofrer para atingir o objectivo mas também não revelem medo de ganhar e ser felizes. Por isso, não é só porque se encontra numa situação privilegiada que o Benfica vai alterar os princípios de vida. O pragmatismo será levado às últimas consequências, agora para conciliar conceitos e estados de espírito tão distantes entre si como serenidade e expectativa; empenho e deslumbramento; disciplina e a glória que, em dez anos, nunca esteve tão próxima.
A razão não depende do tom de voz
Scolari recuperou frase antiga para dizer duas banalidades: quem manda ali é ele (pois quem havia de ser?) e não voltará a convocar jogadores que não estejam a 100% com a causa (se detectou desvios anteriores já devia tê-los afastado). O discurso da intransigência costuma ser muito elogiado no exterior mas, com todo o respeito, é redundante e demagógico. Ter razão não depende do tom de voz mas da força das ideias. Scolari tem crédito e coragem suficientes para resolver os problemas pendentes nos locais próprios, sem precisar deste tipo de recados públicos.
Quem sabe, sabe, e o resto é conversa
Nelo Vingada tinha pouco a ganhar quando optou pela Académica – já merecia o desafio de um grande. Se descer, mesmo sem responsabilidade total, será o rosto do desaire; se garantir a permanência, dificilmente será notícia de primeira página. Passada a fase de adaptação e as agruras do calendário, Coimbra recuperou a esperança e o bom futebol. Quem sabe, sabe, e o resto é conversa.
Litos e o destino do Estoril
O que foi como aluno (um génio que não levou o futebol tão a sério quanto devia) afectou o impacto quando o vimos na pele de professor. Litos surgiu à frente de equipa que não escolheu e sobre a qual recaía o espectro de ser a principal candidata a descer. Oito meses depois, o Estoril assenta numa identidade, mantém a esperança e está acima da linha de água. Para início de carreira não está mal.
A força moral de um treinador
O V. Guimarães cimentou o sexto lugar da SuperLiga, prova de que se não tivesse perdido tempo, no início da época, com discussões estéreis e mesquinhices da mais diversa ordem, podia estar agora por dentro da luta pelo título. Da reconquista vimaranense ressalta a figura de Manuel Machado. O alvo principal da contestação interna revelou força moral e competência para não só resistir ao “ambiente irrespirável” como invertê-lo em benefício da equipa. São obras destas que não estão ao alcance de todos.
