A televisão pública e a Supertaça

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A televisão pública, que vai transmitir amanhã o Benfica-Sporting da Supertaça, começou por fazer um vídeo de promoção do jogo em que Jorge Jesus aparecia como figura central do dérbi. Não há nada como o futebol para acender o rastilho da indignação. As pessoas, quando está em causa a defesa do "seu" clube, são capazes de perder o equilíbrio, a sensatez e a urbanidade que, em muitos casos, pontuam as suas vidas, no dia-a-dia. Não há nada como o futebol para inflamar e para revelar a intolerância dos seres humanos e, neste particular, a perda de valores essenciais (não apenas no futebol) está a levar-nos para um caminho mais preocupante e perigoso, e isso tem muita a ver com a (não) assumpção de responsabilidades. Aliás, a relação estabelecida entre os "poderes do futebol" e a comunicação social precisa de ser repensada, designadamente no que diz respeito à televisão pública…

O referenciado vídeo, entretanto suspenso e substituído na antena da RTP, não fazia mais senão amplificar a narrativa real do dérbi. Ninguém retira dimensão institucional ao Benfica e ao Sporting pelo simples facto de se eleger a figura do dérbi. Quer queiram quer não, Jesus é a figura do dérbi. Foi no Benfica que Jorge Jesus se tornou numa grande figura do futebol português, depois de ter tarimbado em diversas paragens. O Benfica deu-lhe muito e Jesus deu muito ao Benfica. Não vale a pena utilizar os pratos da balança para se chegar à conclusão de quem deu mais a quem. Depois de seis anos na Luz, e ganhando quase tudo o que havia para ganhar, inclusive os dois últimos títulos de campeão nacional, o Benfica deixou escapar Jesus para o Sporting. A contratação de Jesus pelo clube de Alvalade foi um acontecimento. Abriu telejornais e monopolizou a atenção dos media e, com ela, a dos portugueses. Um acontecimento, não apenas a dominar o momento em que se registou mas também - já se sabia - tudo o que se lhe iria seguir: o processo de mudança (?) no Benfica, com Rui Vitória, o treinador escolhido por Luís Filipe Vieira para dar corpo a um "novo projecto" - da "estrutura" para o treinador e não do treinador para a "estrutura" - e as alterações impostas por Jesus no futebol do Sporting.

Quem pensou o vídeo, pensou-o jornalisticamente. O vídeo não desrespeita ninguém. Coloca em destaque a questão central: o actual treinador do Sporting contra a sua ex-equipa na qual deixou uma marca (fortíssima) de um trabalho de seis anos, cuja longevidade - num clube grande - é raríssima no futebol em Portugal. Quem o fez, não o pensou a considerar nem na reacção das turbas nem na reação dos poderes do futebol. A própria FPF reagiu ao vídeo e "manda retirar promoção polémica da Supertaça", segundo se podia ler na edição do passado dia 28, no DN.

Este "manda tirar" e esta "exigência" da FPF sobre a RTP adensam a ideia de que a televisão pública é uma espécie de bola de pingue-pongue, sempre colocada em posição de levar umas (valentes) raquetadas, nas mãos dos principais poderes, sejam eles políticos, económicos ou futebolísticos.

É claro que, do lado do Benfica, há pessoas que não gostam de ver a sua representatividade colocada sobre a figura de um ex-funcionário, mesmo que esse ex-funcionário tenha prestado relevantes serviços à instituição. É claro que essas mesmas pessoas só estariam dispostas a reconhecer a relevância dos serviços prestados à instituição se Jorge Mendes tivesse conseguido extraditar Jorge Jesus para uma prisão de alta segurança no espaço internacional e tudo de acordo com a Convenção de Genebra. E do lado do Sporting, provavelmente, também haverá quem não goste de ver o seu actual treinador a proferir expressões como a do "limpinho, limpinho". Nunca pareceu tão adequada a frase de José Ortega y Gasset, segundo a qual "o homem é o homem e as suas circunstâncias". Uma das funções do jornalismo - com pouca adesão em Portugal - é evidenciar o choque e as contradições que emanam da mudança das circunstâncias. As circunstâncias mudaram e, sendo um facto que mudaram, não há que tentar escondê-las ou reduzir o impacto das contradições.

A televisão pública fez mal em retirar o vídeo, mas na verdade ninguém se surpreendeu muito com o facto, a não ser alguns resistentes que ainda alimentam a esperança de que o jornalismo não se tenha transformado, definitivamente, num cadinho de interesses e compromissos e um arrazoado de lugares-comuns anti-sépticos e inócuos, pratejados à medida do conforto dos poderes. Se se começa a perceber que, na televisão pública, as pessoas escolhidas para falar de futebol são quase todas próximas da figura que, hoje, tem mais poder no futebol português, o que significa substituir um vídeo de promoção do Benfica-Sporting? Nada. Rigorosamente nada. É tudo interesse público. Jesus é que não foi treinador do Benfica, não é treinador do Sporting e fazer o cruzamento dessas duas realidades é uma ofensa aos portugueses. Para onde vamos, afinal?

JARDIM DAS ESTRELAS - ****

Coragem de Fiúsa

No futebol profissional não há nada mais importante do que a verdade desportiva. Naquele seu jeito meio desconcertante, meio desconcertado, o presidente do Gil Vicente, António Fiúsa, não se cala perante a suspeita de que há clubes na 1.ª Liga, como o V. Setúbal ("acordo que lesa o Estado") e o Boavista, que não cumprem com os pressupostos subjacentes à participação nas competições profissionais, entre os quais avulta o incumprimento fiscal. "O sistema tem rosto" - diz Fiúsa -, denunciando publicamente a iniquidade dos mecanismos subjacentes às decisões do CJ da FPF. Argumenta que o Elche, em Espanha, desceu de divisão pelos mesmos motivos (incumprimento) e que, em Portugal, não há coragem para acabar com a "concorrência desleal". Fez bem Fiúsa em apresentar o caso junto do Ministério Público, porque os sinais de permissividade são evidentes. Se os clubes (cumpridores) e a Liga fecham os olhos, por corporativismo ou outro "ismo" qualquer, e se há indícios de dois pesos e duas medidas e de práticas lesa-Estado, ficar sentado em cima da situação seria bem pior, mesmo que a denúncia só tenha sido feita com o Gil Vicente na 2.ª Divisão.

O CACTO

Lenços brancos

Dizem os registos que nenhuma equipa austríaca havia ganho em Portugal. O V. Guimarães foi a vítima, que sai da Liga Europa pela porta baixa, vexada ao peso de uma goleada, em casa, perante o Altach. Rui Vitória tem o pesado desafio de fazer esquecer Jorge Jesus no Benfica. Armando Evangelista a mesma tarefa, em Guimarães, perante Rui Vitória. O descalabro foi total e, se não houver inversão imediata, os lenços brancos podem transformar-se em guilhotina. As dimensões (dos técnicos) também devem ser valoradas perante a dimensão dos desafios.

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