A tortura da balança
Em primeiro lugar e, a partir destas linhas, quero desejar um feliz Natal e próspero ano novo a todos os portugueses, especialmente aos leitores do jornal Record.
Quando chega este período, penso sempre nos meus tempos como profissional de futebol e da angústia que sentia durante todos aqueles anos. Desde o momento que em que saía de casa até que tinha que pesar-me no primeiro treino depois do Natal. Lutar contra a balança era horrível. É como um jogo que nunca termina e que se prolonga durante todos os dias do ano. É um jogo que acabas por perder muitas vezes. Quando entras em campo com peso a mais é o suficiente para estares alterado psicologicamente. Sentes-te pesado, começas a desenvolver a ideia de que não estás em forma e que o teu marcador está com o peso ideal e muito melhor fisicamente que tu. Mesmo que tenhas apenas alguns gramas a mais é o suficiente para o cérebro começar a pregar-te rasteiras.
Até aos 25 anos podia comer tudo o que queria durante as férias de Natal e dificilmente ganhava peso. A partir daí, a história passou a ser outra. O primeiro treino do ano transformava-se num pesadelo e ficava em pânico nos minutos antes de subir à balança. E isto só acontecia com a paragem de Natal.
As férias de verão são muito diferentes. Tens muito tempo para queimar os quilos a mais e ainda mais tempo até ao primeiro jogo oficial. No caso da paragem de inverno acontece precisamente tudo ao contrário: poucos dias para recuperar o peso ideal antes do primeiro jogo oficial. Jogo a doer. Jogo a sério. Sem ritmos de pré-época. Sem facilidades.
Durante todos os anos em que permaneci no estrangeiro sempre vim passar o Natal a Portugal, à exceção dos três consecutivos que passei em Itália por estar a recuperar das operações ao joelho. Sempre estive no Montijo por estas alturas. Eram quatro ou cinco dias maravilhosos que passava com a família e amigos, onde conseguia esquecer durante este tempo a competição e especialmente a balança.
À parte do bacalhau com batatas e grão, no Natal era a desculpa perfeita para comer tudo o que não podia comer durante todo o ano. Sem esquecer os doces da mãe. Não podia dizer que não ao arroz doce, à mousse de chocolate, entre outros.
Recordo-me sempre, por este motivo, daquele primeiro treino de cada ano, porque era um pesadelo. Era o único dia do ano em que me pesava sem o fio e pulseiras. Para ter uns gramas a menos. Lembro-me também que no primeiro jogo oficial, em janeiro, algumas vezes pedia ao preparador fisico para não subir à balança e assim evitava a massacre psicológico de saber que estava com alguns gramas ou quilos acima do peso ideal. Os únicos jogadores que competem nesta altura do ano e que não têm esta preocupação da balança são os que competem na liga inglesa, todos os outros dizem: “Vem aí o tortura da balança”. Era isto que dizia a mim próprio no primeiro dia de trabalho, depois das férias de Natal e não tenho dúvidas que esta frase é a que proferem a maioria dos profissionais atualmente em todo o Mundo. Especialmente para aqueles que têm mais de 25 anos. É a partir desta idade que começa o pesadelo da balança. Mas quem pode dizer não aos doces da mãezinha no Natal?
GRANDE CALDEIRADA
Problemas da CAN
A Taça das Nações Africanas (CAN) aproxima-se uma vez mais. Incrível como esta competição consegue roubar jogadores aos clubes em plena época desportiva há anos e anos. Para quando alterar a data deste torneio para o verão, à semelhança do que acontece com todas as grandes competições internacionais?
NÓS LÁ FORA
Ficar no estrangeiro
Ao chegar esta quadra, lembro-me sempre do difícil que é para qualquer jogador português trabalhar no estrangeiro, principalmente quando tem de passar o Natal fora do país, longe da sua família. Sejam de que campeonato forem, estes também são verdadeiros craques do sacrifício e do amor pelo futebol!
DO MEU ÁLBUM
Natal em Itália
Recordo-me, quase invariavelmente por esta altura, dos anos em que fui operado ao joelho. Foram várias as lesões e era obrigado a passar o Natal em Itália, por estar impedido de fazer viagens. Foi horrivel ter de passar o Natal fora de Portugal, durante todo esse período.
