A trave mestra de uma geração

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1. Se o bom gosto para ter razão depende muito da pontaria, o grande futebol também só faz sentido alicerçado em pilares que suportem a sua integridade; se a magia precisa de golo para não ser ingénua, a criatividade individual não pode viver sem segurança, sob risco de se tornar inútil ou até nociva. Como o talento é um valor suspeito, porque depende da inspiração e demais contingências, o futebol uniu-se à volta de conceitos repressivos (ordem e disciplina) e estimulou argumentos menos voláteis (força, potência e velocidade). No sobe e desce entre esperança e fatalismo; festa e depressão; bem-estar e revolta, a Selecção Nacional deu nomes próprios à máxima expressão artística (Figo e Rui Costa) e cumpriu a formalidade individualizando o golo (João Pinto, Pauleta e Nuno Gomes). Prepara-se agora para eternizar a sua referência defensiva e trave mestra da geração de ouro.

2. Fernando Couto vive no topo da Europa há cerca de uma década. Traz ao peito as medalhas correspondentes a títulos, fama, sucesso e ao reconhecimento que o tornou assíduo dos palcos de referência à escala mundial. Mas transporta também a nostalgia com que relativiza o impacto da felicidade, como se vivesse acompanhado por um sentimento de vazio: ainda não cumpriu o sonho da adolescência, porventura o mais apetecido, de saborear a glória por Portugal. Poucos como ele resumem o verdadeiro significado das reuniões da turma, do reencontro com os amigos da escola e do regresso a um passado cada vez mais distante; porque a vida nem sempre lhe reservou surpresas agradáveis, a Selecção funcionou como refúgio de paz para recuperar força, motivação e confiança. Tem as contas em dia: retribuiu com doze anos quase perfeitos na defesa das quinas.

3. Quando entra em acção, Fernando Couto age como um aluno em avaliação permanente; como se cada despique envolvesse questões de honra pessoal; como se esses desafios dispersos tivessem carácter definitivo e do seu êxito dependesse o futuro dos que lhe são próximos. Porque aborda a competição no máximo da intensidade, já foi apanhado nas ratoeiras de picardias e contundências despropositadas; porque o gene competitivo que traz incorporado o faz jogar nos limites da coragem e do risco, caiu até nas armadilhas do descontrolo emocional. Com ou sem exageros, tornou-se o jogador mais fiável do seu tempo. É o símbolo de uma época, guerreiro que não falta à chamada e motivo de orgulho para quem ama o futebol.

4. Por conhecer o significado da camisola que enverga, de senti-la como parte fundamental dos princípios que lhe moldaram a personalidade e definiram o carácter, sabe medir a dimensão da solenidade que o espera frente à Albânia: será o primeiro português a atingir 100 internacionalizações, consolidando um lugar na História do futebol. Fernando Couto prepara-se para desfrutar do momento, escudado na convicção de que a longa viagem não tem ainda final marcado. Mesmo sendo o mais velho dos parceiros de caminhada – a braçadeira de capitão formaliza a liderança e esclarece a antiguidade –, continua a ter imaginação para alimentar o sonho e disponibilidade para lutar por ele. Prova de que a força da memória só é arrasadora quando aliada à ambição.

PASSE CURTO

Avaria reparada

Adriano, um dos goleadores de 2002/03, tinha a arma encravada. Em seis jogos marcara um golo e o caso ameaçava abalar toda a equipa do Nacional. Reparou a avaria na tarde de domingo: disparou uma rajada de três tiros certeiros e transformou uma simples operação de rotina num fuzilamento puro e simples.

Boas e más notícias

Boas notícias:Fahoumi, guarda-redes da Académica, só demorou um quarto de hora a perceber como colocar-se nos cantos apontados por César Peixoto. As más notícias são piores: só aprendeu depois de sofrer dois golos.

A paciência segundo Rijkaard

Reagindo à derrota com o Valência, Frank Rijkaard esclareceu os adeptos do Barcelona que precisam de ter paciência com a equipa. Estão a ver o ridículo de pedir aos pobres para fazerem investimentos? É isso, só que ao contrário.

Com quem festejar

Roger marcou um golo e teve de resolver o dilema: com quem festejar a obra-prima. Para se afastar do banco, virou à esquerda; arrancou então para as bancadas, mas arrependeu-se e mesmo quando se virou para os companheiros hesitou antes de lhes cair nos braços. Depois do que já passou na Luz, estava autorizado a celebrar como entendesse.

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