A única salvação de Jesus
1 - Os futebolistas são os primeiros a sentir as fraquezas de quem os comanda, sinal de que percebem automaticamente quando a rédea fica um pouco mais larga. Ao menor sinal de precariedade na posição do líder, os soldados têm a tendência natural para serem menos recetivos às ordens, aos conselhos e demais orientações. Na sua recente autobiografia, sir Alex Ferguson confirma a ideia: “No momento em que o treinador perde a autoridade, o clube deixa de existir. Os jogadores assumem o controlo e ficamos em apuros.” Naturalmente. Jorge Jesus viu a posição fragilizada no Benfica pelos acontecimentos na final da Taça de Portugal. Agora, só uma boa relação com o exército que comanda permitirá evitar a rotura.
2 - Jesus pode receber o apoio do presidente, ver diminuída a contestação dos adeptos ou amenizar a revolta oriunda das mais diversas plataformas mediáticas; pode até ver fortalecida a tolerância face às explicações para o mau início de temporada; mas a chave para salvar-se está na gestão do dia-a-dia, em todos os elementos de relacionamento com a equipa e nessa paixão de uso quotidiano que é o treino. O atraso não é irremediável e tudo se resume agora a fazer com que uma sugestão volte a ser entendida como ordem; que qualquer ataque ao comandante recupere a dimensão de ofensa à pátria; que entre uns e outros se restitua uma relação de confiança para divinizar o compromisso dos jogadores com a bandeira, com a luta, com a vida que escolheram e com o homem que os lidera.
3 - O Benfica não se contenta com vitórias sofridas, feitas de inteligência tática, pragmatismo e disciplina; desvaloriza os favores da sorte e não sabe viver em regime impessoal de formalismos, com ausência de afetos e cumplicidades. Ganhar só faz todo o sentido se as manifestações de superioridade forem indiscutíveis e os adversários se renderem à evidência; no fundo, é preciso cumprir os requisitos da arrogância dominadora cravada no ADNdo clube e de que Jorge Jesus tem sido intransigente defensor. De resto, o maior problema não é a gestão dos recursos, muito menos a capacidade de cada elemento perceber o papel que lhe está consignado no plano global. A questão é que o Benfica tem sido, continuadamente, uma equipa estrita, formal e austera, que se limita a cumprir as linhas básicas da cartilha.
4 - Tudo depende agora se a equipa recupera ou não o sentido de aventura e os valores adjacentes de exaltação, dinâmica, intensidade, autoestima... Os jogadores têm de aceitar a orientação que lhes é dada mas devem também dar cunho pessoal à execução. É como na música: pode tocar-se Mozart pela frieza de uma pauta ou interpretá-lo com a paixão e o génio de Maria João Pires, por exemplo. Não se trata de apelar à desobediência mas de recordar que ninguém atinge a excelência limitado a cumprir ordens. No clima tumultuoso da Luz, a paz só chegará com a esperança, tal como a harmonia só será duradoura se o general inculcar nos soldados o prazer pelo jogo e o orgulho de servir a causa. Só com uma relação global de compromisso a nau chegará a bom porto; só com os padrões estéticos e competitivos de outrora a família encarnada voltará a ser feliz.
Martins e Vilela no êxito do Gil
Com pezinhos de lã, o Gil Vicente está a fazer época fabulosa, traduzida em factos concretos
Catorze pontos e quarto lugar a par do Estoril são a parte mais visível do trabalho de João de Deus em Barcelos. Mas a deslumbrante carreira dos gilistas tem protagonistas menos reconhecidos e que, aos poucos, têm dado nome próprio ao percurso feito de conceitos coletivos. Dois acima de todos: Luís Martins que, num futebol com poucos laterais-esquerdos de grande nível, se confirma como jogador de topo, e João Vilela, médio de ida e volta, bem relacionado com o golo e que, feitas as contas, caminha para o fim do primeiro terço da temporada como uma das maiores figuras da Liga.
Lições de CR7 em Camp Nou
Angel Cappa diz que o atleta quando chega acaba e o futebolista quando chega começa
Em Camp Nou, num momento de revolta pelo modo como o jogo estava a decorrer, Cristiano Ronaldo pensou e agiu com o orgulho de um atleta: contra todas as regras, a principal das quais a do bom senso, partiu com atraso considerável e foi atrás de Dani Alves; travou-lhe a marcha e entendeu que, chegando, tinha terminado a tarefa. O brasileiro aproveitou para pensar como futebolista: meteu-lhe a bola por entre as pernas e foi-se embora outra vez, agora em plena área, logo em situação muito perigosa. CR7 deu uma lição de generosidade mas recebeu outra que não esquecerá tão cedo.
Um mau árbitro fora de moda
Quando criticarem os árbitros portugueses, os adeptos devem pensar em Undiano Mallenco
O internacional espanhol é um dos protegidos da UEFA. O que fez no Benfica-Olympiacos, mas principalmente o trabalho que assinou no Barcelona-Real Madrid, confirma a ideia de que há sucessos na vida muito difíceis de explicar. Simplesmente inacreditável. Como pode um juiz que pisa grandes palcos ser tão incompetente? Como pode chegar tão longe, numa atividade orientada pela necessidade de tomar decisões, alguém que passa a vida a não decidir? Na maioria dos lances polémicos só assume o compromisso de salvar a pele. Ainda bem que árbitros assim já estão fora de moda.
