A voz da razão
A ter de escolher uma palavra para caracterizar o Benfica da era Jesus, ela seria “sofreguidão”. Uma ambição atacante desmedida e entusiasmante, mas também uma ansiedade defensiva angustiante. Com Jesus ao leme, já se sabia, o Benfica ou esmagava ou sofria a bom sofrer para segurar o jogo a meio-campo – em particular com os clubes mais fortes. Este ano tem sido diferente.
Depois de um início de época titubeante, ainda a ressacar da experiência traumática que foi o fim da época passada, a equipa mudou e para melhor. O Benfica 2014 pode já não deslumbrar com o carrossel atacante dos anos anteriores, mas, agora, ver um jogo do Benfica já não é uma experiência incerta, de sofrimento. Pelo contrário: o controlo do meio-campo já não é feito a atacar com fulgor, mas a defender de modo pausado.
O jogo em Paços foi, desse ponto de vista, exemplar. Sem nota artística elevada, mas com grande rigor técnico. É sintomático que depois de uma avalanche de golos sofridos no início da temporada, nas últimas 11 partidas o Benfica tenha sofrido apenas um golo (em Barcelos). Este acerto defensivo não acontece por fortuna (bolas que batem no poste) ou porque o guarda-redes faz defesas improváveis. O Benfica não sofre golos porque os adversários nem se aproximam da baliza – foi assim contra o Paços, mas também contra o Sporting.
O dérbi, aliás, revela como o Benfica está diferente e com uma maturidade acrescida. No passado, perante a possibilidade de massacrar o Sporting, Jesus não hesitaria. Agora, a opção é manter a equipa equilibrada, promover a circulação de bola no meio-campo defensivo e sair a jogar pela certa.
Se perguntarem ao adepto emotivo que Benfica prefere, não tenho dúvidas na resposta – o carrossel atacante da época passada. Se perguntarem ao adepto racional que Benfica prefere, a resposta é também óbvia – a equipa pausada de 2014. Ora depois da experiência traumática que foi morrer na praia em 2013, chegou a altura de fazer valer a voz da razão.
