Abuso de poder
Joaquim Oliveira não precisa de dar a cara. Gera uma receita anual de cerca de 200 milhões de euros com os assinantes da Sport TV, cujo negócio lhe permitiu estender o seu poder na área da comunicação social, como proprietário dos títulos JN, DN, “O Jogo”, da rádio TSF e do canal de desporto/futebol Sport TV, que não abdicou de transmitir, por exemplo, o último Sporting-Benfica, porque ou as outras estações lhe dão o preço que querem ou as grandes transmissões ficam por sua conta e risco. Uma temática em discussão nas instâncias europeias. É muito poder concentrado. E o poder excessivo gera múltiplos abusos. Com uma enorme “complacência democrática”.
OGrupo Controlinveste marca terreno em todas as áreas. Na política, na economia, no desporto, com profundíssima incidência no futebol. Nos jornais, na rádio e na televisão, com os efeitos que essa “mancha de poder” produz, direta ou indiretamente, noutros órgãos de comunicação social.
Acontaminação é evidente. E nessa contaminação são arrastados os prisioneiros voluntários de uma lógica obsessiva de poder e aqueles que, num clima de emprego precário, não têm outra alternativa. Estão dependentes do salário – e os que não estão diretamente nessa dependência estão dependentes de outros mecanismos, que têm a ver, quase todos, com o monopólio dos direitos televisivos.
Joaquim Oliveira faz de conta que não tem poder nenhum e ainda é capaz de se fazer de vítima da exposição que lhe é – quando é – conferida. Quem tem o poder que tem, não precisa de facto de publicidade. E muito menos daquela que pode considerar negativa, decorrente do estatuto que só o Benfica, em primeira análise, ousou contestar, por se sentir vítima desta forma de indiscutível “cleptocracia”. Um estatuto de abuso de posição dominante, que os reguladores continuam a ignorar e, assim, a alimentar, num ambiente que não estimula a concorrência.
Há cerca de um ano, Joaquim Oliveira recusou-se a ir à Comissão Parlamentar de Ética prestar esclarecimentos sobre questões suscitados a propósito do “caso BPN”. Estava no seu direito. Mas este é o comportamento típico de quem construiu o seu império sem ruído ou explicações. Ou de quem se habituou a ter quem faça ruído em seu nome. São estas as perversidades da concentração de poderes. E são essas perversidades que o “patrão dos clubes” não se disponibiliza a debater, preferindo marcar presença nas tribunas dos Estádios (os principais) e a glosar a miséria de mão estendida de quem não pode dispensar a “generosidade” de uma “receita antecipada” para fazer face à “pressão da tesouraria”. Por isso não acredito que, independentemente da natureza dos financiamentos, e porque está em causa a manutenção de um raro poder, não pague ao Benfica aquilo que Luís Filipe Vieira quer.
Em circuito fechado, alega não possuir qualquer influência em matérias editoriais no Grupo que controla. É por isso mera coincidência dispor de publicidade positiva e notícias “a seu favor” nos títulos do qual é proprietário e sempre que se sente acossado. Nos destaques e nas omissões. Mera coincidência, de facto. Também temos o nosso Berluscónio e o povo ainda não desceu a Avenida da Liberdade.
