Adeptos de futebol
Ser adepto de um clube é uma forma de estar na vida e uma espécie de pacto de sangue com o clube que se ama. Pode-se mudar de tudo na vida: de marca de carro; de casa; de mobília; de país; de mulher; etc.. Mas nunca de clube.
Os adeptos de futebol têm uma espécie de omertà em relação aos seu querido clube, quando toca a pôr em causa, algo, menos bom ou menos correcto. Há um segredo absoluto e evita-se falar de coisas que prejudiquem o clube, por outro lado, o clube no que faz tem sempre razão.
Conheço adeptos de futebol que depois de um jogo, quando chegavam a casa, o ambiente ficava negro. Esta febre de futebol é aplicada a uma numerosa massa de adeptos, o futebol e o seu clube são tudo para eles e vivem em função de que o seu clube seja o melhor.
As suas vidas quotidianas cruzam-se com as suas vidas futebolísticas e atingem por vezes outra dimensão. Um adepto num jogo de futebol, ou algo que se passe com o seu clube, passa de uma realidade para outra e transfigura-se. Tornando-se uma nova personagem com a fúria que leva dentro de si, tendo como objectivo a sua equipa vencer e ser a melhor.
Há gente que não entende este tipo de atitudes e vê os adeptos de futebol com desdém e compara-os a loucos. O futebol é o ópio das massas que os distrai das grandes questões políticas e sociais. Os regimes ditatoriais sempre utilizaram de forma inteligente o futebol como seu aliado: Salazar, Franco, etc.. O Benfica antes do 25 de Abril era o clube do regime. Enquanto se pensa em futebol não se pensa noutra coisa.
Um adepto de futebol vive o mundo como ele o entende: como é e será, nunca pensa como ele deveria ser.
Um adepto na sua forma de pensar só há o seu clube e os jogadores do seu clube que são os melhores. Um adepto mete uma coisa na cabeça, sem ter que pensar e racionalizar nada. Não percebe que há a vitória, mas também a derrota, a injustiça, a falha, a perda, etc..
Eu não sou adepto de nenhum clube, já fui quando era mais novo, mas fui-me afastando para poder ter uma leitura equidistante e livre. O meu clube é a selecção nacional. O ambiente, num campo de futebol, num jogo de selecção é respirável e menos faccioso.
No dia 25 de Outubro vamos ter o Benfica - Sporting, mas o jogo já começou com declarações dos seus dirigentes. Sempre que há um dérbi parece que há dois jogos: o jogo das declarações dos dirigentes e o jogo propriamente dito.
Ricardo, ex-guarda-redes, lamenta discussões que deixam estádios às moscas. Eu corroboro essa ideia, os dirigentes são os maiores culpados do aumento de desinteresse em assistir a um jogo de futebol, para além, naturalmente da crise económica que atravessamos.
Um dérbi é sempre tenso, emotivo, quente e apaixonante. Jorge Jesus mudou de banco mas devemos encarar essa situação naturalmente.
Falemos de táctica, estratégia, métodos de treino e dos jogadores, deixemos as questões que nada têm que ver com futebol.
O Benfica se está triste por perder Jorge Jesus, procure mostrar que o novo treinador Rui Vitória foi uma boa opção e dê-se a palavra ao jogo, aos jogadores e às belas jogadas.
