Alfredo Barroso: Mais «doping»
O CICLISMO de alta competição voltou à estradas europeias e os escândalos relacionados com o tráfico e o consumo de substâncias dopantes voltaram a surgir à luz do dia, com redobrado fulgor. A célebre eritropoietina, vulgo EPO, assim como outros produtos mais ou menos sofisticados que visam melhorar artificialmente as prestações dos atletas, voltaram a circular nos pelotões e nas veias de muitos ciclistas. Tudo isto porque equipas, clubes, federações, organizadores de provas, directores desportivos, treinadores, preparadores físicos e os próprios ciclistas não terão levado muito a sério o que se passou na Volta à França do ano passado. Julgaram, erradamente, que tanta barulheira os teria vitimizado injustamente aos olhos da opinião pública e que tudo ficaria por ali. Mas não foi assim que pensaram as autoridades judiciais e policiais francesas e italianas, que decidiram prosseguir as suas investigações até às últimas consequências, penetrando cada vez mais fundo nas redes do “doping”.
Porque é de redes -- de verdadeiras mafias -- que se trata. Como o comprovam as graves acusações que pesam sobre um bizarro advogado de vários ciclistas famosos, Bertrand Lavelot (por acaso casado com uma farmacêutica), e um sinistro criador de cavalos seu amigo, Bernard Sainz, que há mais de trinta anos se faz passar por terapeuta e homeopata junto dos ciclistas profissionais -- os quais lhe chamam “doutor Mabuse” por causa dos efeitos miraculosos dos produtos ilícitos que ele lhes fornece em troca de bom dinheiro. Entre os atletas que recorrem aos préstimos destes “bons” amigos, está o ciclista mais popular de França, Richard Virenque (que, finalmente, terá admitido que se dopou), e a maior “revelação” desta nova temporada, o jovem ciclista belga Frank Vandenbroucke, de 24 anos, que muitos especialistas já consideravam como o sucessor de Eddy Merckx. O próprio Vandenbrouke admitiu que o advogado Bertrand Lavelot o apresentou a Bernard Sainz e que este o convenceu dos seus extraordinários dotes terapêuticos, ao mostrar-lhe fotos em que ele prodigalizava os seus cuidados a grandes figuras do ciclismo como Eddy Merckx, Lucien Van Impe, Bernard Hinault, Laurent Fignon, Raymond Poulidor ou Cyrille Guimard. Para já nem falar de outros desportistas como, por exemplo, o campeão mundial de Fórmula 1 Alain Prost.
Em Itália, onde as autoridades judiciais e policiais também prosseguem várias investigações sobre o tráfico de substâncias ilícitas nos meios desportivos, designadamente no futebol, rebentou novo escândalo. A equipa italiana «Amore e Vita», próxima do Vaticano e já com 25 anos de existência, foi excluída da Volta à Itália, alegadamente por “falta de performances”. O seu “manager”, Ivano Fanini, considera tal decisão suspeita e absurda, quanto mais não seja porque ciclistas da sua equipa ganharam quatro etapas nos últimos três anos. Na realidade -- explica Fanini -- o que os organizadores do “Giro” temem é o confronto entre as prestações dos seus ciclistas, que não se dopam e estão “limpos”, e as prestações de ciclistas de outras equipas que foram admitidas na competição, apesar de estarem sob investigação ou suspeita da prática de “doping”. As distâncias e as diferenças de tempos, à chegada, seriam demasiado escandalosas e reveladoras. Fanini afirmou, ainda, que o ciclismo em Itália é dirigido por personagens que, à partida do “Giro” de 1996, tiveram o desplante de prevenir as equipas concorrentes de que uma brigada de estupefacientes se preparava para fazer um controlo no navio que transportaria o pelotão desde a Grécia até ao porto de Brindisi.
O que se está a passar em França e em Itália demonstra que as autoridades desportivas são, por si sós, incapazes de lutar com determinação e eficácia contra a prática generalizada do “doping”, não só no ciclismo como em muitas outras modalidades. Para já nem falar dos casos em que essas autoridades desportivas revelam uma indiferença muito próxima da cumplicidade. Ora, a prática do “doping”, além de ser batoteira e ilegal, é uma questão bastante grave que, pelos enormes riscos que implica para os atletas, tem de ser encarada como um problema de saúde pública. À justiça e à polícia compete combater o tráfico de substâncias ilícitas e seus agentes. Ao poder político compete adoptar medidas eficazes de protecção da saúde dos atletas. Nenhuma modalidade desportiva está acima de qualquer suspeita. Por mais popular que seja. Por muito poderosos que se considerem os seus dirigentes. E por maiores que possam ser os interesses económico-financeiros que a exploram e sustentam.
Segundo alguns dos mais reputados especialistas em biologia e medicina desportiva, desde 1995 que nenhum atleta de alta competição terá alcançado marcas de relevo, sobretudo em provas de resistência (como o ciclismo, o atletismo de fundo e meio-fundo e o ski de fundo), sem ter tomado previamente doses maciças de eritropoietina. O que é assustador!
