Alguém falou em crise?
Numa altura em que a Europa se vê assolada por enorme crise financeira, com os países à procura de soluções para as dívidas soberanas, existe um sector que parece passar algo incólume a esta fonte de problemas. Falo, claro está, da indústria do futebol, onde se continuam a movimentar valores astronómicos nas transferências de jogadores.
Seria expectável que, nesta conjuntura, os clubes optassem por conter despesas, procedimento que muitas equipas europeias tiveram de ter. Porém, a chegada de agentes externos ao mundo do futebol mudou as regras do jogo. E o sinal visível desta nova ordem terá ocorrido em 2003, quando Abramovich assumiu a liderança do Chelsea.
Em oito anos, o milionário russo investiu mais de 700 milhões de euros na compra de jogadores e treinadores, capital esse que veio ajudar, e de que maneira, a equilibrar as contas de muitos clubes europeus, FC Porto incluído, dando-lhes a possibilidade de ir ao mercado contratar novos atletas.
A circulação deste dinheiro no futebol tem sido um balão de oxigénio anticrise, que aumentou com o aparecimento de novos investidores. Magnatas americanos, russos, asiáticos ou árabes estão a apostar no futebol, especialmente no inglês. O Manchester City, por exemplo, é uma equipa temível, graças aos investimentos gigantescos que fez em jogadores de top. E acabou de comprar Agüero por 45 milhões ao At. Madrid, dinheiro que serviu aos espanhóis para comprarem Falcão e Ruben Micael ao FC Porto.
Por terras gaulesas, o PSG, vendido a um grupo do Qatar, ganhou poder económico e pagou 42 milhões por Pastore. Em igual situação estão o Málaga e algumas equipas do Leste da Europa, como o Shakhtar e o Zenit. Até o desconhecido Anzhi começa a dar nas vistas. Em Portugal, o Beira-Mar passou a ser controlado por um investidor iraniano...
Mas o financiamento das equipas de futebol não se resume à boa vontade de empresários endinheirados. Os clubes estão a encontrar outro tipo de soluções. O FC Porto, por exemplo, contratou Danilo e Alex Sandro com a ajuda do BMG, banco brasileiro que também financiará o seu futuro museu. Já Benfica e Sporting, com apoio da banca, criaram fundos de investimento onde se pode aplicar dinheiro, com retornos acima da média, em passes de jogadores dos dois clubes.
O surgimento de fundos privados, especializados na compra de jogadores, é também uma realidade. Estas entidades adquirem um jogador, colocam-no num determinado clube e, pouco tempo depois, vendem-no por um valor superior a outra equipa. Foi assim que Luís Fabiano e Ramires passaram, respectivamente, por FC Porto e Benfica. E foi este o molde que levou Roberto para Saragoça, tornando-o num negócio lucrativo para os encarnados.
Os fundos privados de jogadores e outros financiamentos são uma forma de capital de risco e, como tal, comportam perigos. É que os investidores têm o poder de forçar a venda de um jogador. E estarão os clubes dispostos a sacrificar os interesses desportivos sempre que apareçam ofertas? Não é por acaso que os chamados direitos de terceiros foram proibidos em Inglaterra.
Os três grandes portugueses, apesar do passivos elevados, encaram a nova época de garras afiadas. Foram feitas aquisições por valores que, outrora, pareciam impossíveis. O tempo dirá quem seguiu o melhor caminho. Uma coisa é certa: sem um milionário generoso por perto, não se sobrevive sem receitas.
