Algumas reflexões laterais
1. A história foi contada por Jorge Valdano e vale pelo significado que lhe quisermos dar. Hugo Arduzzo, treinador do Sporting de las Parejas no longínquo ano de 1973, já ia em mais de um quarto de hora de palestra, indiferente aos sinais de cansaço e à crescente abstracção dos seus jogadores; o monólogo prosseguiu em tom eloquente e no meio da alucinação encontrou os olhos de "Negro" Cardoso, lateral-direito de 40 anos, respeitado futebolista da terra, mas a quem já sobravam quilos e varizes para a vontade de ser útil. O treinador prosseguiu o discurso grandioso e pediu-lhe qualquer coisa como isto: "Hoje, esqueça o seu lugar e explore todo o flanco até se transformar em extremo. Quando a nossa equipa recuperar a bola, você sai como um raio e vai por ali acima no apoio ao ataque." Cardoso ouviu com atenção e perguntou: "E a que horas volto, mister?"
2. Paulo Ferreira partiu para o decisivo teste da sua carreira num turbilhão de emoções, entre a confiança e a prudência que deve anteceder os grandes desafios. Arrancou escudado no rótulo de consistente promessa e acabou como referência máxima da SuperLiga na posição de defesa-direito, à qual deu uma dimensão que o futebol português desconhecia - e a reciclagem de Miguel reforçou a ideia de que 2002/03 constitui um marco para a história do desvalorizado posto de defesa lateral. Sem perder de vista o episódio de Cardoso na Argentina de há 30 anos, Paulo Ferreira e Miguel são, pelo contrário, a imagem de jovens a quem os treinadores têm pouco a pedir e muito a ensinar; a quem o alerta para os descuidos faz mais sentido que a motivação para os riscos da aventura criativa; a quem não é preciso pedir para serem extremos mas apetrechá- -los de todas as armas para se tornarem melhores defesas.
3. Rui Jorge é diferente e não apenas por ser esquerdino. Se um treinador lhe fizesse pedido igual ao de Hugo Arduzzo, concluiria por si mesmo que tinha o lugar em perigo, face ao irremediável conflito entre as suas características e a exigência das sucessivas viagens de ida e volta. Um desfasamento que foi o álibi perfeito de Bölöni para o afastar em benefício de Tello, disparate que só não foi mais grave porque Scolari, mesmo assim, o manteve na selecção. Rui Jorge é um perfeccionista solidário, cumpridor de todas as tarefas defensivas e um jogador inteligente, qualificado e disponível para dar segurança à primeira fase da construção; não se esgota a defender e assume a responsabilidade do primeiro passe com que abrevia algumas etapas ofensivas - torna a transposição mais rápida. Nunca será um extremo, mas a forma como pega na bola torna-o temível nos cruzamentos (incluindo os que faz longe da linha final), bem como nos cantos e livres.
4. Nuno Valente, para concluir a ronda pelos melhores laterais da actualidade, representa a facção dos que estão habilitados, por físico e características técnicas, a actuar mais perto dos centrais. Não possui as soluções de Paulo Ferreira e Miguel na condução a alta velocidade, mas também é perigoso na chegada à grande área adversária; não tem a precisão e o brilhantismo de Rui Jorge, mas não comete erros comprometedores; é ambicioso nos objectivos, mas a arma principal está relacionada com o domínio quase absoluto dos princípios que regem a sua função específica: no estrito papel de defesa é o mais consistente de todos. Se um dia, por absurdo, algum treinador o colocar perante as mesmas dificuldades em que o velho Cardoso de Las Parejas se sentiu ao escutar o inflamado discurso de Arduzzo, Nuno Valente não fará perguntas. Limitar-se-á a dizer: "Está bem, mister, eu vou mas volto."
