António Oliveira tem perfil certo
O diagnóstico está feito: o Sporting tem há muitos anos um problema de liderança. O futebol está cheio de casos de presidentes e dirigentes que se aproximaram desta indústria por dois motivos primaciais: protagonismo e, com ele, alavancagem dos seus próprios negócios.
Por outras palavras: através do destaque social que o futebol proporciona, os negócios de natureza pessoal são mais fáceis de realizar. E nesta órbita o ramo do imobiliário e da construção civil, em território nacional e não só, oferecem-nos bastos exemplos de que “saber de futebol” não é condição necessária e suficiente para se ser presidente de um clube.
A inversa também é verdadeira: não basta saber-se de futebol para se ser, automaticamente, um bom presidente. Há um conjunto de requisitos que importa qualificar. Desde logo, a percepção do fenómeno. Depois, o conhecimento real das variáveis que condicionam a indústria. O futebol na sua vertente empresarial; o futebol na sua vertente desportiva e – não menos importante – o futebol na sua vertente de bastidor.
Nos últimos dias, em razão da profunda crise que assaltou o Sporting, agravada com a derrota registada em Alvalade no jogo com o Benfica, muitos foram aqueles que debitaram as suas “sentenças” sobre o momento dos leões. Os de sempre e... António Oliveira. Numa fase em que já não está em causa a discussão sobre a capacidade de Godinho Lopes em dar um novo rumo e impulso ao Sporting (GL vai juntar-se à galeria de notáveis que ficará na história do clube pelos piores motivos), o que se deve discutir é o próximo ciclo. O Sporting não tem tempo para dar tempo a um presidente que precisa de aprender os “truques de presidência”. E é nesse sentido que o Sporting precisa de uma alternativa que conheça os “truques” subjacentes. Essa figura pode ser António Oliveira. Já foi jogador, treinador, jogador-treinador, seleccionador e presidente/dirigente. Cometeu erros? Sem dúvida. Mas parece ter aprendido com eles. Afastou-se quando não valeria a pena desgastar-se com “guerras” inúteis. Regressou, com outro estatuto académico e empresarial. Com conhecimento e lastro suficientes para estabelecer pontes e rupturas. E em boa posição para estabelecer a ligação necessária com a banca. Apenas só tem de se acautelar com aqueles que saíram dos regimes anteriores (os regimes que levaram o Sporting à falência) para aproveitar uma eventual “onda” que lhe apeteça cavalgar. É que o Sporting é grande vítima dos falsos consensos e das falsas rupturas. O equilíbrio instável com tudo e com todos levou o leão a uma situação (quase) ingovernável. A factura está à vista de todos.
Par de Cardozo e ímpar Falcão
Sabe-se a “estória” de que Falcão poderia ter jogado no Benfica e notabilizou-se no FC Porto... Se Falcão tem sido contratado pelos encarnados, provavelmente Cardozo já não estaria na Luz... Estamos a falar de dois pontas-de-lança, mas de dimensões diferentes... O paraguaio é bom (sobretudo numa Liga como a nossa); o colombiano é excepcional, e os 5 golos com que brindou o Deportivo são a prova bem recente de uma capacidade ímpar. No Benfica, entre pares, Cardozo vem resistindo – e aquilo que produziu no jogo de Alvalade contribuiu para refrear os que lhe criticam a falta de mobilidade. Mas há outro colombiano a fazer furor em Portugal. Chama-se Jackson. Martínez. Com tudo para seguir... Falcão. O que abona o “scouting” do FC Porto.
Atropelamento(s)
O Benfica atirou o leão ao tapete. Um leão moribundo, a (sobre)viver em grandes dificuldades, ainda teve um frémito de audácia, um esgar de inconformismo, antes de promover a sua própria “execução”. Se eu quiser correr 1.500 metros e só tiver pernas para 400, e tiver a má ideia de não olhar para a gestão entre o espaço e o tempo, o que acontece é aquilo que aconteceu ao Sporting, na passada segunda-feira em Alvalade: um “estoiro” tremendo. Não foi o Benfica que atropelou o Sporting. Foi o Sporting que se esticou na “estrada” para ser atropelado pelo Benfica. E essa predisposição, com um toque de “heroísmo”, mostra bem o grau de impreparação que assaltou o futebol dos leões. Ninguém pode pensar em participar numa maratona se não fizer o trabalho de base respectivo. O Sporting tem uma Academia, tem uma tradição na formação, mas não tem mentalidade profissional. Por falta de bons hábitos...
Izmailoff II
Já aqui trouxemos o russo para ilustrar um dos problemas do Sporting: jogadores (com talento) muito bem pagos a render (desportivamente) pouco. Tem de haver uma relação entre o rendimento e o potencial dos atletas. Já se viu que Izmailov está off a maior parte do tempo. E Vercauteren tem toda a razão quando diz que “treinar-se, não se treinar, treinar-se um bocadinho, voltar a não se treinar, isto para mim não é uma solução e penso que também não é uma solução para o grupo”. Por isso se estranha o alegado interesse (?) do FC Porto...
