ANTÓNIO SILVA COSTA: Messias de cabelos loiros
NO UNIVERSO do futebol português, universo que, apesar de impregnado por muitas coisas boas e más da civilização moderna, continua a ser universo de características arcaicas e com um funcionamento mítico-religioso bem fácil de verificar, a tribo leonina tem vivido a sua história e construído a sua cultura de uma maneira que nos permite distingui-la de todas as outras.
Como já o tenho escrito e vou repeti-lo novamente, até porque a paixão clubística escapa geralmente à razão e é normalmente duradoura, os adeptos do Sporting sempre mostraram uma fé inquebrantável no futuro do seu clube e uma esperança sempre renovada de que a hora da vitória não tardará a chegar. Talvez não seja a massa associativa mais numerosa do País - nem os milhões de portugueses davam para grupos tão grandes como os que, segundo certos dirigentes, apoiam outros clubes de Portugal - mas qualitativamente parece não ficar a dever nada a ninguém. Se os títulos conquistados fossem a grande razão da adesão dos adeptos aos clubes de futebol, sobretudo àqueles mais considerados “símbolos nacionais”, o Sporting não teria adeptos com menos de 17 anos, o que está longe de ser verdade.
Há 17 anos que o Sporting não ganhou nada ou quase nada, pelo menos a nível do Campeonato Português de Futebol, e a massa sportinguista continua bem viva e cada ano parte cheia de fé e de novas esperanças para as competições desportivas em que o seu clube vai participar. Este ano parece que a esperança verde é ainda maior.
Um dia escrevi, a propósito de Michel Preud’homme, que um salvador tinha vindo para o Benfica. Este guarda-redes extraordinário que a Bélgica deu a Portugal nunca foi campeão na Luz, mas salvou certamente o Benfica de um naufrágio que poderia ter sido bem mais catastrófico sem a presença deste futebolista de eleição, verdadeiro modelo mítico para seus companheiros e admiradores. Agora que Michel Preud’homme deixou a baliza do Benfica, outro salvador parece ter chegado a Portugal, mas assentando desta vez arraiais em Alvalade. Esse novo “messias”, o dinamarquês de cabelos loiros, é Peter Schmeichel que, apesar dos seus 35 anos, continua a ser um dos maiores guarda-redes da actualidade.
Desde que Schmeichel chegou à Mata Real das Caldas da Rainha, lugar onde o Sporting esteve a preparar os seus guerreiros para os combates que se aproximam, os treinos dos leões pareceram, por vezes, jogos a sério.
Milhares de sportinguistas acorreram a este local para verem os seu velhos e novos ídolos, principalmente Peter Schmeichel que, com a sua figura imponente e com as suas defesas quase impossíveis que está a realizar durante os treinos, se apresenta já como um dos jogadores-chave com que o Sporting pode contar para a próxima temporada. Giuseppe Materazzi é um treinador pouco conhecido em Portugal, mas parece ser pessoa séria, trabalhadora e com competência suficiente para dar este ano uma grande alegria aos sportinguistas. Penso igualmente poder afirmar que o “messias” Schmeichel, o novo guardião do templo leonino, tem à sua frente um forte grupo de “apóstolos” que, sob a liderança do corajoso, carismático e quase miraculado Iordanov, são bem capazes de transpor montanhas e de caminhar por cima das águas rumo à ressurreição do Sporting. Recentemente Pinto da Costa, o indiscutível e igualmente carismático presidente do FC Porto, reforçando a ideia de que “o desporto é como uma religião”, lembrou que “antigamente os fiéis eram atirados aos leões”, mas que “hoje os leões já não contam, enquanto os fiéis passam” (Record, 7-7-99).
Todos os sportinguistas esperam que, ao menos desta vez, Pinto da Costa se tenha enganado. Se Schmeichel desse ao Sporting tantos pontos como Michel Preud’homme deu ao Benfica e se acrescentássemos ainda tantos pontos como os que os árbitros lhe suprimiram o ano passado, então o Sporting poderia bem ser o primeiro campeão português do próximo milénio.
