Aquele é que é o homem
Espero que desta tenha sido de vez. A exibição do Benfica contra o Boavista demonstrou que não há arruaças nos treinos ou assobios nos jogos que façam os seus jogadores menos profissionais ou que afectem a lucidez, a determinação e a coragem do treinador encarnado, e muito menos que possam pôr em causa, sejam quais forem os resultados, a capacidade técnica e o prestígio de Giovanni Trapattoni.
Amanhã, quando o Benfica voltar a perder, é preciso aguentar. Há que esperar que a velha raposa repense a sua estratégia e torne a distribuir as peças de modo a regressar às vitórias e, uma vez mais, animar as hostes. Até porque a forma com que se apresentam os maiores rivais da águia é tão irregular que os três grandes podem mesmo vir a ser surpreendidos por Sp. Braga, Boavista ou Marítimo.
Nunca como esta época as fragilidades do Benfica quiseram dizer tão pouco. O FC Porto destruiu o plantel antigo e ainda não estabilizou o novo. O Sporting é, ainda, o que se viu na Madeira. Para o Benfica, ter Trap é um privilégio e ele lá vai tecendo a teia que pode levar ao título. A não ser que queiram começar tudo do princípio. Outra vez.
Argel
Todos temos na vida o nosso "momento do jogo". Argel viveu a sua grande oportunidade de se afirmar no futebol europeu ao mais alto nível quando, há uns anos atrás, integrou o plantel do FC Porto. Nas Antas, tinha o enquadramento profissional e a dinâmica de vitória que poderiam ter impulsionado o seu percurso para outros patamares.
Até porque o central brasileiro tem o espírito combativo, a "alma" que falta à maior parte dos futebolistas. Ganha muito, mas parece um amador que adora o emblema e morre pela camisola. Foi isso mesmo que os benfiquistas quiseram agradecer com a ovação na hora do adeus - a "paga" de Trapattoni por ter recusado o beijo na testa. Mas aquele pontapé na porta estragou-lhe a carreira...
JNPC
O homem é uma máquina. Depois de ter sido chamado ao Tribunal de Gondomar e em menos de um mês, lançou um livro que logo se transformou num êxito de vendas, recebeu no Dragão o primeiro-ministro, que emotivamente o abraçou, e foi dar a cara ao "Herman SIC", cujas audiências logicamente aumentaram. Com isso, fez com que hoje já ninguém se lembre que só não passou a noite numa cela por ter ido fazer compras a Espanha...
Mas Pinto da Costa foi mais longe, com a emocionada homenagem a Caneira (que nunca jogou no FC Porto!), declamando, com inegável capacidade dramática, um poema de António Nobre, também conhecido, li no Record, por "António Sérgio". Um profissional, ponto.
Peseiro
Peseiro
Não vale a pena elogiá-lo ou criticá-lo conforme o Sporting nos empolga (Polga, digo bem) ou nos arrasa os nervos. José Peseiro corre tanto o risco de ser campeão como de acabar a SuperLiga em quinto, será o que Deus Nosso Senhor quiser. Porque depois da vitória sobre o Benfica - um triunfo assente numa exibição sólida - só os pessimistas do costume seriam capazes de prever aqueles 2-0 aos 21 minutos na Choupana.
Mas nem esses iriam admitir que depois de conseguida a recuperação da desvantagem, e em cima da hora, o letal Adriano pudesse aparecer sozinho, no extremo da pequena área, para cabecear para a vitória. Defender o empate daria a liderança isolada. Mas a opção foi outra. E foi errada.
Pedro Mantorras
Tivemos no Sporting a recuperação de Sá Pinto quase na mesma altura em que chegava ao fim o calvário de Mantorras. São dois jogadores carismáticos, queridos pelas bancadas dos seus clubes e que, curiosamente, têm uma maneira de jogar semelhante, apesar das características individuais diversas - ambos imprimem velocidade ao jogo, ambos se empenham de modo vibrante, ambos deixam nas camisolas todo o suor que houver para dar.
Pedro Mantorras dispõe ainda de um brinde suplementar para os adeptos: é um goleador e sempre que molha a sopa é uma festa. Pois se ameaçou em Alvalade, concretizou desta vez na Luz, agradecendo assim o gigantesco coro encarnado que não deixou que Trapattoni se "esquecesse" de o lançar na partida. A pérola negra volta a brilhar.
Marinho
O que está escrito não pode ser desmentido e a verdade é esta: na época de 2000/01, o Belenenses de Marinho Peres acabou a primeira volta em 6.º lugar, com... 31 pontos, menos 6 do que o líder. Ou seja, se fosse hoje, dividiria a liderança da SuperLiga com os três grandes, não estaria a 10 pontos.
Nessa temporada, o "Belém" acabou em 7.º, logo atrás do Benfica, com 52 pontos. O técnico brasileiro tinha a "mania" de conseguir o mínimo de 30 pontos no final da primeira metade do campeonato para evitar o perigo da descida.
E na época seguinte, com filosofia semelhante, o resultado foi ainda melhor: 5.º no final. Outros tempos, eu sei. As "metodologias" de treino não tinham tantos "iluminados". Era pontuar e pronto.
