Armas de talento
CAMUFLAR – O talento tem muitas formas de expressão e uma equipa é feita, precisamente, da junção das características diferentes dos seus elementos. Analisadas as coisas em termos individuais, no entanto, nenhum grande jogador de futebol o pode ser apenas e só com base em parâmetros físicos excepcionais. Quando se referencia um bom futebolista e os elogios que suportam essa convicção nos remetem apenas para força, rapidez, resistência, peso e altura, cuidado, é chegada a hora de percebermos que nesta vida anda meio mundo a querer enganar a outra metade. Porque o prestígio do físico é recente no futebol – tem pouco mais de trinta anos – e tem servido para camuflar muita incompetência.
SUPÉRFLUO – Gianluca Vialli jogava na Juventus e acabara um jogo no qual nada lhe saíra bem. Na entrevista, já depois do duche, o repórter cobriu-o de elogios: fizera um jogo dantesco, esforçado e generoso, correra quilómetros e dera tudo quanto havia dentro de si. Surpreendentemente, Luca sorriu e, com um gesto amigável, respondeu: "Meu caro, agradeço-lhe muito, mas com esses elogios era preferível dizer que joguei rigorosamente nada." Toda a diferença está na concepção de quem enaltece o supérfluo e não o essencial: o esforço só faz sentido quando se joga verdadeiramente; o músculo só conta se o cérebro estiver a funcionar; a velocidade só tem importância se quem a utiliza souber travar, tal como a coragem só serve de arma enquanto houver gente com medo.
ANDRÉ CRUZ – Em Aveiro, o Sporting não funcionou como equipa. E para sua desgraça, logo no primeiro jogo sem Niculae, Jardel não existiu; João Pinto correu, lutou, etc., etc., etc. – se é que me faço entender; Quaresma exigiu o direito a uma noite de desinspiração; Tiago foi o reflexo nervoso do cenário pouco agradável. Mas o líder ganhou o jogo e ganhou porque tem na equipa outras armas poderosas, todas elas relacionadas com o talento. Ao cabo de centenas de tentativas falhadas, por exemplo, André Cruz recuperou subitamente a memória de um ano a rematar sem nexo e marcou dois livres directos fantásticos, que valeram dois golos e três pontos. O central brasileiro, que viveu período menos feliz, referenciado a partir de conceitos físicos considerados negativos – a lentidão acima de todos – respondeu com o maior argumento, independentemente dos golos que falhe ou marque: é jogador de futebol da cabeça aos pés.
PEDRO BARBOSA – Frente ao Beira-Mar, o capitão foi a outra arma de Bölöni para ganhar o jogo. Pedro Barbosa deu uma aula de gestão de espaço e velocidade: nem rápido nem lento, simplesmente perfeito. Como de costume. Aliás, é o jogador da I Liga que, por talento e intuição, melhor domina esses conceitos fundamentais no futebol. Tudo porque tem o hábito de pensar antes de correr, de valorizar mais depressa um sinal vindo do cérebro que qualquer instinto derivado do músculo. Em campo, Barbosa responde a todas as perguntas imaginadas desde a infância, cada vez mais convencido de que é um incompreendido nestes tempos de fúria tresloucada, nos quais choques e correrias à toa superam em admiração exterior o valor supremo da inteligência. De tal maneira, que a esta hora já ele próprio deve estar na dúvida: será que vale mesmo a pena ir de Fórmula 1 para um engarramento?
