As convicções de um guerreiro
1. Neste futebol gerido à imagem das grandes empresas, em que os adeptos estão condenados a um peso virtual e os jogadores foram reduzidos a activos pagos para picar o ponto, trabalhar e obedecer em silêncio; neste mundo em que o capitalismo selvagem estimula o jogo mas é indiferente ao espectáculo e à expressão de arte; agora que o lucro se sobrepõe à História e todos os meios são lícitos para ganhar, já pouco resta do fenómeno cultural que ajuda a perceber quem somos, como crescemos e chegámos até aqui. Em plena estratégia de globalização competitiva, na qual a paixão clubista deixou de pesar nas decisões administrativas, um guerreiro se ergue, assente na legitimidade de luta e sofrimento, reclamando em voz alta aquilo a que tem direito.
2. Sá Pinto devolve o futebol à sua natureza genuína, aquela em que o jogador se compromete com o público, baseado no orgulho da representatividade. Por temperamento e atitude, ele é um grito de revolta que estabelece vínculo indestrutível com o emblema; que respeita o passado e constrói pontes seguras com o futuro imaginado sem traições, indignidades ou atropelos. Quando lamentamos o fim do amor à camisola ou afirmamos, sem esperança, que os futebolistas se tornaram mercenários despojados de emoções, ressalvemos o corajoso exemplo de um homem que optou por ser fiel aos princípios e aos amores; que recusou ser mercadoria cumpridora de regras e assumiu, com notável instinto de sobrevivência, a grandeza de zelar também pela felicidade dos outros.
3. No campo de batalha, Sá Pinto entra em órbita e deixa-se levar pelo instinto. Recupera então o espírito aventureiro de lutador solidário e torna-se esmagador pela presença com e sem bola, atrás e à frente, à esquerda e à direita. Quando transmite a imagem de uma agitação excessiva que parece diminuí-lo, surpreende com o recurso a trunfos guardados na manga e que põem tudo no lugar: revela técnica extraordinária no modo como, depois de longas perseguições, golpeia o adversário com dribles, tabelas ou passes de rotura; parecendo disperso e por vezes perdido na geografia do terreno, impõe-se por versatilidade e sentido de orientação; sendo jogador de todo o espaço de ataque, dispõe de argumentos temíveis junto à baliza – posição, espontaneidade, remate fácil e bom jogo de cabeça.
4. Nos largos meses de sofrimento e privação, Ricardo Sá Pinto foi um emblema de nostalgia; a imagem distorcida da estrela amada mas cadente; o pré-anúncio de uma saudade que, afinal, não tinha razões de existir. Agora que retomou a história inacabada que é a sua carreira e recuperou a dimensão desportiva que o tornou referência a nível nacional e europeu, é emocionante vê-lo celebrar a vitória em que poucos acreditavam. Sá Pinto é o símbolo de um sentimento colectivo com origem na alma dos adeptos e o exemplo perfeito de uma determinada forma de entender o futebol; é um jogador que, assente em convicções inegociáveis, vive desalinhado da grande indústria. Merece, por isso e não só, o reconhecimento de todos os verdadeiros amantes do jogo.
FLANCO DIREITO
Um central na estrela de Carlos Brito
No Rio Ave que ocupa o 6.º lugar da SuperLiga, a estrela de Carlos Brito ganhou nova ponta: Franco, o central mais pontuado pelos jornalistas de Record e com mais golos marcados (cinco). Jogar bom futebol, com organização e aventura, com iniciativa e liberdade de expressão, é um caminho seguro para valorizar jogadores. Ricardo Nascimento e Miguelito já o sabiam.
Estavam à espera de quê?
Miguel passava a bola e ficava atrás – costuma entregar e ir buscar à frente –; forçou uma vez e coxeou; passa 90’ a alta velocidade; quando precisou de ser firme num lance dividido, encolheu-se (1.º golo do Beira-Mar) – ele que mete a cabeça onde outros não põem os pés. Apesar de inferiorizado, arrastou-se até final, com uma contractura muscular. Ontem, ficou fora do derby. A inconsciência foi total.
A dupla mensagem de Ricardo Costa
Ricardo Costa marcou o golo em Leiria e, acto contínuo, correu o campo de um extremo ao outro para abraçar Luís César. Fez ele bem. Em primeiro lugar deixou uma justa mensagem de reconhecimento – homenageou o funcionário mais dedicado, mais competente e mais ganhador do futebol português; depois tranquilizou os adeptos portistas – quando um jovem respeita dessa forma os alicerces do clube que representa, é sinal de que a História está em boas mãos.
