As costas largas de Paulo Fonseca
1 - Mesmo quando uma equipa automatiza o funcionamento do plano definido pelo treinador, o êxito está sempre mais dependente do talento, da técnica, da astúcia, do saber e da inspiração dos jogadores. Todas as ideias podem ser ganhadoras ou perdedoras, porque o futebol pertence mais aos pés de quem executa do que à cabeça de quem pensa e traça as coordenadas da ação. Tudo isso sabendo que há decisões do general com implicações na fisionomia de uma equipa e que podem alterar-lhe o rendimento: jogar à volta da bola ou com pontapés para a frente; por dentro ou por fora; com mais ou menos agressividade; com iniciativa ou expectativa. Todas as verdades já se cruzaram com êxito, felicidade e eficácia na história do jogo. Não há caminho único para a glória.
2 - Num desporto marcado por erros individuais de quem executa; decisões arbitrais com influência nos resultados e caprichos insondáveis da bola; numa atividade em que vitória e derrota trocam de lugar à velocidade do som, muitas vezes sem explicação racional, não é sério atribuir toda a responsabilidade pelo insucesso, até ver apenas parcial, a um homem só. Ninguém de bom senso acreditará que a culpa de um ciclo com duas vitórias em oito jogos seja apenas do treinador. Paulo Fonseca não passa incólume nesta fase negativa de contornos excessivos para uma potência como é o FC Porto. Sobretudo porque lhe terá faltado sensibilidade para entender, a partir de certa altura, que a corrente de comunicação com a equipa bloqueou algures; que no ar pairava mais medo do que esperança; mais ansiedade do que confiança; mais dúvida do que prazer.
3 - Ao leme de equipa que só sentia conforto a jogar em ataque organizado, num sistema de 4x3x3 com boa utilização das alas na zona de definição, Paulo Fonseca tenta versatilizar os meios de chegada à baliza. Com Josué encostado à direita, em constantes movimentos interiores, procura aproximar-se do 4x4x2; por não ter João Moutinho (facto que mais condiciona a expressão do FC Porto 2013/14) tentou libertar Lucho para clarificar o jogo ofensivo, fazendo recuar um terceiro médio para o espaço que Fernando se habituou a dominar sozinho. À ousadia de querer apetrechar a equipa com mais soluções táticas não corresponderam os resultados. E o problema destas mudanças não é convencer os jogadores a concretizá-las, mas sim fazê-los acreditar nelas.
4 - Pacho Maturana, o colombiano a quem chamam “Sacchi dos trópicos”, disse um dia que é importante “morrermos sem nos atraiçoarmos”, num alerta para quem não resiste ao medo do fracasso e cede às pressões só para salvar a pele. Paulo Fonseca faz muito bem em manter-se fiel às ideias que defende, prova de que acredita nelas, na sua consistência e no modo como os jogadores as assimilam e põem em prática. As costas do treinador portista têm de ser largas para suportar tantas críticas, recriminações e até insultos de muitos dos que analisam o seu trabalho. Por mim, desde que mantenha lealdade às convicções e continue a aprender como qualquer homem de 40 anos, não vejo inconveniente em renovar a convicção de que tem condições para treinar uma grande equipa. E que acabará por triunfar no FC Porto.
Este presidente tem dupla faceta
Há frases de circunstância que parecem insignificantes mas que podem ser muito relevantes
Bruno de Carvalho contrariou as expectativas ao afirmar que o Sporting não vai reforçar a equipa em janeiro. O responsável leonino tem conjugado dois perfis que se julgavam inconciliáveis: o de chefe da claque aglutinador dos adeptos e o de líder que, até hoje, só tomou decisões corretas na defesa de um clube a viver grave crise económico-financeira. Se mantiver a palavra e não for mesmo ao mercado acentuará a imagem de profeta capaz de guiar o clube à terra prometida. E acrescentará argumentos para consolidar a ideia de que o leão tem presidente para os próximos larguíssimos anos.
Só um remate em hora e meia
A estatística do jogo com o Rio Ave só pode ter feito soar as sirenes junto dos olhanenses
Ninguém está condenado a descer de escalão à 12.ª jornada, mesmo quem ocupa os últimos lugares da tabela – de resto, se o campeonato acabasse hoje, o Olhanense até ficaria entre os grandes. Mas os números que sintetizam o último confronto dos algarvios são alarmantes. Receber uma equipa do meio da tabela (bem sabemos que a receção foi em casa alheia e que o adversário é especialista em jogar fora) e fazer apenas um remate à baliza é assustador. Paulo Alves confirmou assim que tem pela frente um trabalho ainda mais complicado e contingente do que imaginava quando chegou a Olhão.
Heldon e Derley são decisivos
Não tem sido brilhante, bem pelo contrário, a carreira do Marítimo no presente campeonato
Não obstante encontrar-se furos abaixo do que seria de esperar (10.º lugar com 14 pontos), duas vitórias consecutivas (Arouca e dérbi com o Nacional) colocaram a equipa de Pedro Martins em posição mais de acordo com o seu valor global. Para lá de bem orientado, o Marítimo tem um punhado de excelentes jogadores. Olhando para a lista dos melhores marcadores da Liga, dois saltam logo à vista: o cabo-verdiano Heldon (8 golos) e o brasileiro Derley (7). Os dois, juntos, assinaram 15 dos 20 tentos dos insulares na competição. Se mantiverem a média serão um caso sério no fim do campeonato.
