As hérnias da arbitragem
A gestão do sector da arbitragem tem sido um desastre. No entanto, a sua figura-mor, Vítor Pereira, que muda de critérios como quem muda de camisa, susceptível a todo o tipo de pressões (externas e internas), lá vai vendendo a ideia de que os árbitros portugueses estão entre “os melhores do Mundo” e, junto das instâncias internacionais, gere a imagem útil e necessária segundo a qual as federações e os seus órgãos decisórios não devem ser mais senão marionetas nas mãos de quem efectivamente controla e subsidia o futebol: a UEFA, na Europa e a FIFA, à escala universal.
Portugal é um país pequeno, mas isso não seria problemático se não tivesse tiques de país pequeno. A indiferença perante a desregulação da actividade económica e perante os sinais e as cifras da corrupção conduziram os portugueses a um tempo difícil de austeridade, que promete continuar. A bancarrota não foi um acaso. Foi a consequência da falta de regulação e da irresponsabilidade política. O futebol tem coisas melhores do que o país mas muitas vezes – abusando da sua popularidade – projecta coisas piores do que o país. Por causa dos mesmos sintomas que nos conduziram à bancarrota: medo da regulação, aversão às regras e energias acumuladas no sentido de promover favoritismos e compadrios.
A arbitragem, no futebol, tem regras, mas vive num mundo à parte. Vive numa bolha. Os árbitros criaram uma elite – acentuando o estatuto com o regime de profissionalização – e, em vez de lutarem pela inclusão, distanciam-se cada vez mais das realidades. Em vez de exigirem mais e melhores condições para poderem estar à altura da responsabilidade que têm no jogo, refugiam-se no saco de boxe que é a APAF, espécie de relógio de repetição de ocas ideias, cucos de um ninho perdido e perdem a sua própria identidade pessoal. Se os árbitros são os primeiros a não exigirem protecção, no sentido de serem ajudados (através das novas tecnologias), o que se pode fazer por eles? Se os árbitros ficam à espera, sentados como monos, que a FIFA e o International Board resolvam o anacronismo, bem podem continuar sentados por mais uns anos. Mas não se queixem. O seu imobilismo e grau de satisfação perante as mordomias que o futebol vai proporcionando são o seu maior inimigo. Os responsáveis da arbitragem não querem mudar porque eles são e representam os elos de um sistema que se alimenta do compadrio e de uma lógica protectora dos mais fortes.
Não sei se pelas causas que geraram o Apito Dourado ou por peritagens adjacentes, a verdade é que Vítor Pereira, nas nomeações, tem sempre um cuidado enorme em não acicatar os ânimos do FC Porto e, agora, do Benfica. É uma verificação: o Sporting, por culpa própria, deixou de se bater pelo título nos últimos anos e distanciou-se das franjas de poder. É ignorado e, às vezes, humilhado. Vítor Pereira diz que não é sensível às pressões dos clubes, mas a verdade é que os árbitros deixam de ser nomeados sempre que os clubes assim o exigem. Foi assim com Artur Soares Dias e o FC Porto; foi assim com Pedro Proença e o Benfica; foi assim com Duarte Gomes e o Sporting. Os vetos não são regulamentares, ninguém os assume mas existem. Sou, em princípio, contra o sorteio, mas, nas actuais condições de pressão e temperatura, prefiro o sorteio a este sistema de nomeações que não é mais do que... um “sorteio” longe dos olhares públicos.
Depois, há esta contradição que ninguém consegue explicar, porque não tem explicação: primeiro, os árbitros deveriam chegar aos primeiros lugares da classificação de cada época por serem os melhores; ninguém entende como lá chegam, mas pior do que isso é não haver quem queira explicar; segundo, os que chegam a internacionais e agora a internacionais/profissionais não dirigem os jogos considerados mais difíceis ou mediáticos, com esta irónica particularidade de Proença (que rima com Benquerença, outra ironia) ter sido achado “in extremis” para Alvalade. Sendo assim, o que justifica o estatuto de profissionais/internacionais? Não são eles, em tese, os melhores?
Veja-se o desastre do processo de nomeações desta semana. Antecipa-se a divulgação, nomeia-se Benquerença para o Sporting-FC Porto, e, depois, para a rima do desatino ficar completa, nomeia-se Proença, que de início havia sido nomeado para o Estoril-Marítimo. Chama-se a isto profissionalismo? São hérnias a mais.
NOTA – O Sporting-FC Porto tem tudo para correr mal. Bruno de Carvalho já percebeu que, neste futebol, as “cartas” estão marcadas. Mas, apesar disso, precisa de ter mais cuidado para não promover a explosão de bolsas de violência gratuitas – o pior que o futebol pode gerar.
JARDIM DAS ESTRELAS - ****
Classe(s)
Luís Castro percebeu rapidamente os ajustamentos tácticos que tinha de fazer no FC Porto para lhe aumentar a capacidade competitiva e a equipa melhorou sob o seu comando. Mas se há sinais de crescimento na “Quinta do Castro”, a semana foi dominada pelo desempenho desportivo do Benfica em Londres: fala-se da falta de classe de Jorge Jesus fora do campo, mas a classe-super da equipa (muito bem orientada pelo seu treinador) esteve dentro dele, numa portentosa noite europeia.
O CACTO
Fraude
Não entendo este país: estão todos indignados com a “dança de Jesus” e tudo o que (de muito reprovável, sublinho) se lhe seguiu, em termos de falta de desportivismo. Mas ninguém se indigna – nenhum governante, nenhum deputado, nenhum partido – com uma FPF, cuja renovação do estatuto de utilidade pública foi efectivado há cerca de um ano por despacho publicado em “Diário da República”, patrocinar e promover um director profissional condenado por fraude fiscal. Na Alemanha, Uli Hoeness foi condenado a 3 anos e meio de prisão e demitiu-se da presidência do Bayern Munique. Em Portugal, faz-se de conta que nada se passou e, mais do que isso, ajuda-se a condenação a “fazer as malas” para o Brasil. Com um cartão de embarque e palmadinhas nas costas. Não entendo este país. Ou, se calhar, entendo bem de mais...
