As pontas que Hélder uniu

Adicione como fonte preferencial no Google

1. A urgência de resultados tem sobre os alicerces dos clubes o efeito da angústia no sistema nervoso central das equipas: danifica a razão; potencia o medo; desmobiliza o trabalho; altera as emoções; desfaz elos de ligação institucional e põe em risco os laços de afecto com origem no interior do balneário. Em situações de pressão não há bandeira que evite a amnésia colectiva; não há motivação para recuperar rotinas e ideias esquecidas; não há coragem que resista ao erro, transformado em início do processo que alastra às bancadas em forma de crispação sonora, muitas vezes selada com a subliminar mensagem dos lenços brancos. Nessas alturas, a bola transforma-se em risco insustentável. Perdida a confiança, a única terapia possível para combater o receio é interpretar os sinais da desinspiração e assumir o sentido comum do jogo. Não para inverter tendências, mas simplesmente para sobreviver, ou seja, para que todos fiquem em paz com as suas consciências.

2.No final do jogo com o Moreirense, José António Camacho apontou o dedo à falta de alegria dos jogadores; quer dizer, foi cirúrgico no diagnóstico e, como bónus, ainda deu um tema para reflexão: jogar bem futebol não se reduz à obediência e ao cumprimento das obrigações básicas. Jogar bem futebol é isso mais paixão, prazer e sentimento; é ser profissional e respeitar o clube, mas também não ter medo das emoções, aceitar o risco de ser feliz, não tremer perante o sonho e as dificuldades. Em plena travessia do deserto, a águia vive condicionada pelos sinais eternos de uma grandeza excessiva. Há nove anos que o Benfica individualiza vitórias e derrotas, exagero próprio das comunidades em crise; há nove anos que faz questão absoluta em dar nome à esperança e à derrocada; há nove anos que pensa pouco, vive ansioso e desfoca o essencial dos seus problemas, incapaz de avaliar a verdadeira enfermidade: a melancolia de tempos distantes.

3. Com a memória e o bom senso contaminados pelos efeitos das alterações emocionais, permanentemente entre o céu e o inferno, não tem sido fácil cerrar fileiras, criar uma frente comum e abordar todos os dramas. Por outro lado, tem faltado disponibilidade para estimular a identificação dos atletas com um clube afectado pelo vírus do mercado e pela mania de grandezas cujas consequências estão ainda por avaliar. Entre nomes sonantes que transportavam a promessa de magia e glória, Hélder alimentava a dúvida do custo zero, a incerteza do físico debilitado e a sugestão de que o tempo o tinha deteriorado sem remédio. Hoje o enigma é outro: se Moreira não é o melhor guarda-redes da SuperLiga – embora não esteja tão longe quanto parece; se a adaptação recente de Miguel se impôs à especialidade de Armando e Cabral; se Cristiano saiu diminuído da mudança para a Luz; se os centrais (à excepção de Ricardo Rocha) têm sido alvo de discussão desde a primeira hora, como explicar que o Benfica tenha a defesa menos batida da SuperLiga?

4. Enquanto esperou, Hélder foi um mero emblema da nostalgia, o sobrevivente do último título nacional. Resignou-se ao palpite exterior de que era uma caricatura do central de outrora, mas quando pediu a palavra e apresentou argumentos tornou-se a chave de problemas pendentes. É difícil marcar golos ao Benfica porque todos participam na causa defensiva; porque Petit e Tiago estão a fazer um campeonato excepcional e não totalmente reconhecido; mas sobretudo porque Hélder uniu as pontas dispersas, articulou movimentações e introduziu harmonia, saber, confiança e autoridade – nos últimos nove jogos para a SuperLiga a muralha encarnada sofreu apenas quatro rombos. Perdida a frescura da juventude, mantém intacta a capacidade para adivinhar movimentos e antecipar-se ao tempo. Domina assim a arte de relativizar a excessiva dependência do físico, alimentando os mistérios do instinto que a experiência aperfeiçoa. Coisas de grandes jogadores...

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade