As vitórias em campo nunca podem servir de anestesia institucional

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É precisamente quando tudo parece correr bem que os sócios devem exigir mais escrutínio, mais transparência e mais visão estratégica. O futuro do Benfica não se decide apenas nos noventa minutos. Decide-se também na qualidade da sua governação, na solidez das suas contas e na capacidade de preparar o Clube para os desafios que se aproximam.

No rescaldo da última Assembleia Geral, algumas notas de relevo.

SOBRE A PARTICIPAÇÃO

A reduzida participação dos sócios volta a evidenciar um problema recorrente de cultura associativa quando o futebol ganha. Os sócios assumem que está tudo bem e afastam-se da vida não desportiva do Clube. É precisamente nesses momentos que começa o verdadeiro risco.

O Benfica não pode limitar-se a gerir emoções de “domingo a domingo”. Os grandes desafios do Clube jogam-se também na participação dos sócios, na qualidade da governação, na definição estratégica e na capacidade de antecipar o futuro.

Existe uma tendência preocupante para concentrar energias nas urgências do resultado, quando o verdadeiro desafio para consolidar uma posição na elite europeia é estrutural e não apenas desportivo.

SOBRE PEDRO PROENÇA

São de saudar as iniciativas apresentadas por Nuno Lobo e João Manteigas.

No caso de Nuno Lobo, tratou-se de uma proposta que procurava permitir aos sócios pronunciarem-se sobre a retirada de confiança política ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

Infelizmente, essa iniciativa foi inviabilizada por uma decisão do Presidente da Mesa da Assembleia Geral que, na minha opinião, e com todo o respeito, revelou falta de independência e de coragem institucional.

Face à natureza da proposta, à importância institucional da matéria e ao sentimento amplamente partilhado pelos sócios sobre este tema, entendo que o Presidente da Mesa errou nos planos estatutário e político.

Quanto à proposta de João Manteigas, compreendo o seu alcance e a sua intenção. Porém, subsistem dúvidas sobre os fundamentos adequados para um eventual processo disciplinar. Na minha perspetiva, esta é essencialmente uma questão política e não disciplinar.

Isso não significa afastar a validade dos fundamentos invocados. Pelo contrário. Apenas considero que uma eventual apreciação disciplinar faria mais sentido após uma decisão política clara de retirada de confiança institucional.

Quando um dirigente deixa de reunir condições políticas para exercer funções, a resposta deve ser política.

A responsabilidade política resolve-se politicamente e não disciplinarmente.

As duas iniciativas gozam de uma legitimidade total. Além dos motivos invocados, acresce a falta de verdade desportiva que vai custar ao Benfica, no exercício corrente, entre €40M a €50M, pela não participação na Liga dos Campeões.

SOBRE AS CONTAS

Apesar dos resultados positivos apresentados, subsistem dúvidas relevantes sobre a sustentabilidade do atual modelo económico.

Face à ausência da Liga dos Campeões em 2026/27, ao crescimento da massa salarial e aos potenciais impactos futuros derivados da centralização dos direitos audiovisuais, torna-se indispensável uma reflexão mais profunda sobre a robustez financeira do Benfica.

Quando os números parecem favoráveis, é fundamental exigir uma visão clara para os riscos que se aproximam. A ausência dessa clarificação estratégica pode, por si só, constituir motivo suficiente para questionar a saúde financeira do Clube.

Antes da contabilização dos ganhos com os direitos económicos dos atletas e da indemnização recebida do Real Madrid pela saída de José Mourinho, o Grupo apresentou um resultado operacional negativo superior a €20M. Este facto justificaria uma explicação mais detalhada por parte da Direção.

Merecem igualmente atenção:

- A evolução entre ativo e passivo corrente;

- O agravamento do saldo líquido entre clientes e fornecedores no futebol (Net Trade);

- O crescimento do passivo exigível por contraponto à redução relativa do passivo não exigível;

- O recurso ao desconto do contrato da NOS para financiamento de despesa corrente.

Permanece ainda uma outra questão relevante. O Clube continua a suportar os encargos associados ao reembolso da dívida contraída para a aquisição da Benfica Estádio e da Benfica TV?

Estas não são questões de oposição. São questões de responsabilidade.

SOBRE OS DIREITOS AUDIOVISUAIS

O Benfica chegou tarde ao debate sobre a centralização dos direitos audiovisuais e essa ausência de protagonismo pode ter custos significativos no futuro.

Uma redução potencial de cerca de €20M euros por época não é uma questão meramente operacional. Tem impacto direto na geração de receitas recorrentes, na perceção de risco por parte dos mercados e, consequentemente, nas condições de financiamento do Clube.

Menos receitas estruturais poderão traduzir-se em maior pressão sobre os spreads dos futuros empréstimos obrigacionistas, reduzindo margem financeira numa altura em que o Benfica enfrenta desafios relevantes de investimento.

Durante demasiado tempo, este tema foi tratado como um problema distante. Hoje é evidente que a centralização dos direitos audiovisuais não é apenas uma questão de distribuição de receitas. É uma questão estratégica que influencia a competitividade, a capacidade de investimento e a autonomia financeira do Benfica no médio e longo prazo.

SOBRE A BENFICA FM

A discussão sobre a Benfica FM continua envolta numa preocupante falta de transparência.

Os dados económicos do projeto permanecem pouco claros, sem explicações suficientes sobre a evolução dos custos, do passivo e dos resultados esperados.

Mas o ponto mais preocupante foi outro. A ideia de que uma rádio FM pode ser o principal veículo para aproximar o Benfica das gerações mais jovens revela uma leitura profundamente desajustada dos atuais hábitos de consumo. Hoje, os jovens vivem em ecossistemas digitais. Consomem conteúdos através de podcasts, plataformas de vídeo, redes sociais e formatos on-demand. A rádio FM pode conservar relevância junto de públicos mais envelhecidos, mas dificilmente constitui o principal canal de ligação às novas gerações.

Confundir presença mediática com influência efetiva é ignorar uma transformação que alterou radicalmente a comunicação nas últimas duas décadas.

O desafio não é estar presente em mais plataformas. O desafio é estar presente onde as pessoas efetivamente estão.

SOBRE O BENFICA DISTRICT

Merece igualmente registo a ausência de qualquer explicação relevante sobre o projeto, apesar da sua dimensão estratégica e do impacto potencial que poderá ter no futuro do Clube.

Tratando-se de um investimento frequentemente apresentado como estruturante para a diversificação de receitas e para a valorização dos ativos do universo Benfica, seria expectável uma prestação de informação mais detalhada sobre o estado de execução do projeto, os compromissos financeiros assumidos, os prazos previstos e os riscos associados.

Sem resultados comprovados e sem uma necessidade claramente

fundamentada, a exigência de escrutínio torna-se não apenas legítima, mas indispensável. E decisiva.

SOBRE AS MODALIDADES

As observações feitas sobre as modalidades revelam alguma falta de enquadramento estratégico.

É verdade, confirme referido, que o voleibol masculino é atualmente a mais barata das cinco modalidades de pavilhão.

Mas é precisamente aí que está o problema. Durante a pandemia, todas as modalidades sofreram cortes significativos. No período seguinte, todas recuperaram os níveis de investimento anteriores, exceto o voleibol.

A perda de hegemonia da modalidade não resulta de uma falha competitiva, mas sim de uma opção de desinvestimento, agravada pelo reforço financeiro do rival.

A questão central não é o voleibol. É o modelo. Se o Benfica entende que o investimento global nas modalidades deve manter-se próximo dos €27M, então terá de discutir a dispersão dos recursos e estabelecer prioridades claras.

É verdade que o voleibol feminino do FC Porto dispõe atualmente de um orçamento aproximadamente duas vezes superior ao do Benfica. Mas também é verdade que, por exemplo, no andebol masculino, os rivais também investem o dobro do Benfica. E nada foi referido.

O debate sério não é sobre uma modalidade isolada. É sobre a coerência da estratégia desportiva e a forma como os recursos disponíveis são distribuídos para garantir competitividade e ambição em todo o ecossistema desportivo do Clube.

CONCLUSÃO

A Assembleia Geral deixou uma mensagem que merece reflexão. O Benfica continua a apresentar força mobilizadora nos momentos de paixão desportiva, mas revela fragilidades quando se trata de participação cívica, escrutínio e discussão estratégica.

É precisamente nos períodos de estabilidade aparente que os sócios devem ser mais exigentes. Os grandes riscos raramente surgem de forma repentina. Constroem-se lentamente, através da acumulação de decisões pouco questionadas, de projetos insuficientemente explicados e de opções estratégicas sem debate.

O Benfica não precisa apenas de vencer jogos. Precisa de fortalecer a sua cultura de participação, reforçar os mecanismos de transparência e preparar-se para um contexto competitivo cada vez mais exigente.

Um Clube como o Benfica distingue-se não apenas pela forma como alcança e celebra as vitórias, mas pela forma como se organiza para enfrentar os desafios que ainda não chegaram. Dentro e fora das quatro linhas.

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