Assalto à FPF explica quase tudo?
Quase oito meses depois do assalto ao edifício da sede da Federação Portuguesa de Futebol e de se ter criado a ideia, pelos vestígios deixados pelo assaltante (sangue e artigos pessoais), que este seria um caso de fácil identificação, cuja conclusão se tornou ainda mais lógica quando as imagens de videovigilância foram tornadas públicas, confirmando a captação dos movimentos do meliante, o silêncio passou a ser o principal protagonista do caso.
Sabe-se que o invasor entrou nos gabinetes de Vítor Pereira, presidente do Conselho de Arbitragem, de Humberto Coelho, vice-presidente com o pelouro da Selecção Nacional e figura prestigiada com fortes ligações ao Benfica, e de Fernando Gomes, presidente da FPF, furtando os respectivos computadores. Não sobram dúvidas de que o assaltante não procurava simples computadores (para isso, mais valia assaltar uma loja de artigos de informática...); procurava o acesso à informação contida nesses computadores. Informação “classificada”, já se vê, no entender do assaltante ou do(s) seus(s) mandante(s).
O assalto acontece numa altura em que as opiniões se dividem sobre onde reside, actualmente, o centro do poder do futebol português: ainda no Porto, que o conquistou a Lisboa em razão de uma estratégia de sucesso que deu frutos e resultados, ou de regresso à capital depois da aproximação operada por Luís Filipe Vieira a Fernando Gomes? Parece possível a ilação segundo a qual Vieira viu Gomes como um dissidente da “estrutura-FC Porto” e, a partir dessa ideia, a melhor maneira de começar a contrariar a hegemonia que Pinto da Costa e seus sequazes conquistaram no futebol nacional. Recorde-se que o presidente da FPF foi administrador da SAD do FC Porto, saiu do FC Porto em ruptura com Pinto da Costa e ganhou as eleições com o apoio do Benfica, que subitamente abandonou a estratégia de conduzir Fernando Seara ao cadeirão máximo da “Alexandre Herculano”.
Foi aliás o próprio Fernando Gomes quem, na sua primeira (e única) reacção, consumada no imediato, falou de um “crime encomendado”, que o visava atingir e intimidar. Supõe-se, aliás, de acordo com a natureza dessa reacção e considerando as dinâmicas subjacentes à sua eleição como presidente da FPF, que Fernando Gomes “auto-identificou” os suspeitos, e daí a sua confessada determinação em não desistir. Aliás, o eixo Vítor Pereira-Humberto Coelho-Fernando Gomes “varrido” pelo assaltante pode indiciar alguma coisa.
Apesar do à-vontade com que foi consumado o assalto, a verdade é que a investigação ainda não produziu quaisquer resultados que sejam conhecidos. Fernando Gomes declarou, em Fevereiro, que não prestaria mais declarações até final da investigação, mas a verdade é que ele próprio e o seu desempenho podem estar em causa, porque até à data ninguém pode estabelecer um nexo de causalidade entre o assalto e a natureza da sua presidência.
Aquilo que se sabe e é factual são duas coisas: o FC Porto continuou na Taça da Liga (decisão produzida logo a seguir), o Benfica teve o título na mão e deixou-o fugir, “in extremis”, para o FC Porto, com muitas arbitragens polémicas. Por apurar está, na verdade, se o assalto teve alguma coisa a ver com muitas das coisas que se passaram ao longo da temporada: decisões muito discutíveis no plano disciplinar e arbitragens também muito polémicas.
É estranho que, do lado dos clubes, não se manifeste nenhuma preocupação com o impasse. Confiança cega e ilimitada na investigação ou... mais alguma coisa? Do lado de Fernando Gomes, talvez já se justificasse uma declaração formal, no sentido de voltar a marcar uma posição, não obstante a vontade expressa há sete meses de não voltar a falar do assunto, antes da conclusão das investigações. O futebol português não pode, ciclicamente, ficar refém de comportamentos menos dignos. E o medo não pode vencer.
NOTA – Fico, agora, a saber que não devemos ser “fundamentalistas” em relação a coisas tão comezinhas como roubar/não roubar, violar/não violar, agredir/não agredir, matar/não matar. É tudo igual. E, por ser igual, até temos juristas a recomendar que o crime de fraude fiscal tenha honras e presença federativas. Isto é que é... utilidade pública! Mais: sugiro até que se comece a fazer provisões para se erigirem estátuas a todos aqueles que tenham a douta capacidade de protagonizar crimes fiscais acima dos 500.000 euros. A malta até gosta de pagar impostos e de pagar por aqueles que não pagam. Viva Portugal!
NOTA 1 – Não estou habituado a ser elogiado em público e, por isso, vou esperar pela oportunidade de me sentar com o Nuno Santos, agora cronista do Record, para lhe agradecer as referências feitas ao meu trabalho e para lhe dizer que, hoje, percebo muito bem algumas “tergiversões televisivas” e as dinâmicas à sua volta.
JARDIM DAS ESTRELAS
Montero e Markovic
Algumas boas presenças na Liga portuguesa, esta época, com dois grandes destaques: Montero, no Sporting, melhor marcador da prova até ao momento, e Markovic, o sérvio supersónico do Benfica – a dupla M&M na fase inicial do campeonato luso.
No FC Porto, Quintero promete, mas para já é só promessa, até na óptica do treinador Paulo Fonseca, que não lhe tem dado muito palco. Fejsa, outro sérvio, parece valor seguro, entre os encarnados. Nota alta para Adrien, William Carvalho, André Martins, Licá, todos portugueses. E, já agora, custa ver, na Luz, Cardozo “perdoado” e Carlos Martins sem a mesma possibilidade de se redimir. Já ninguém se lembra do médio benfiquista porque foram geradas alternativas no plantel; no caso do paraguaio, não...
O CACTO
Ai, ai... Liga!
Há qualquer coisa que não colhe nas explicações dadas pela Liga: o regulamento diz expressamente que as equipas B não podem jogar no mesmo dia das equipas A. Não há duas interpretações possíveis. E, portanto, ou se muda o regulamento ou, em face das actuais normas regulamentares, tem de haver sanção para os incumpridores. Embora já se tenha percebido que a principal sancionada devia ser a Comissão Executiva. A Liga não pode mandar às malvas os seus próprios regulamentos.
