Azevedo e as ordens de Manolo

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1. O ciclismo venceu as ameaças do início dos anos 90. Resistiu à suprema traição ao seu passado, quando minimizou o trepador, renegou a imagem do sofrimento e tornou possível a vitória sem luta directa entre os homens – Miguel Indurain foi um robot que venceu cinco Tours a voar sozinho nos contra-relógios e a defender-se na alta montanha; não caiu nas mãos da psiquiatria, logo a seguir, quando percebeu que a alternativa de sentido oposto, feita de ataque sistemático, cavalgadas solitárias e estímulo à aventura, era afinal fruto de batota indecente – Marco Pantani devolveu a paixão do grande ciclismo, mas deixou-nos com a confirmação de que a medicina está a ir longe de mais; à beira da derrota por KO encontrou a mais bela história desportiva do século XX – Lance Armstrong, vencedor de um cancro em estado avançado, prepara-se agora para atacar o pedestal de Coppi, Anquetil, Merckx e Hinault. O ciclismo, está provado, nunca morrerá.

2. Se Armstrong é o salvador da crise mundial, disfarçando nuvens negras que não desapareceram, José Azevedo repôs a modalidade no lugar que merece entre o coração dos portugueses, engrossando a lista dos nomes que dão forma à lenda das bicicletas. José Maria Nicolau, Alfredo Trindade, Alves Barbosa, Joaquim Agostinho, Marco Chagas, Acácio da Silva, Joaquim Gomes e Orlando Rodrigues exemplificam o País que fomos ao longo de décadas – explicam até opções e determinado tipo de sentimentos que prevalecem até hoje. São também um bom espelho do País que fomos e somos, na defesa de convicções, na força natural, na teimosia, na coragem, na malandrice, na racionalidade excessiva, na inteligência e, acima de tudo, no talento comum expresso de forma e em tempo distintos.

3. O sentimento de orgulho nacional pelo feito de Azevedo é evidente e mesmo que nem todos estejam em condições de valorizar o sexto lugar no Tour – um ano depois de ter sido quinto no Giro – , o País acabará, mais tarde ou mais cedo, por lhe atribuir o merecido estatuto de referência absoluta. Portugal acompanhou com crescente interesse a odisseia em estradas de França, viveu os episódios, sofreu com os percalços, emocionou-se com as proezas e recordou romances passados que também terminaram com um lugar entre a elite no maior acontecimento anual gerado pelo desporto. Seguro de que nenhum outro ciclista se expressou tão eloquentemente correspondendo aos padrões definidos pelo seu imaginário colectivo (Joaquim Agostinho), no palco de todas as memórias e ilusões (Volta à França).

4. À chegada, José Azevedo foi surpreendido pela recepção e resumiu numa frase o sereno desenquadramento com o entusiasmo de quem lhe punha uma bandeira portuguesa nas costas: "Cumpri apenas o que o Manolo pediu." Depois de ter sido o anjo da guarda de Beloki e Galdeano, no cumprimento escrupuloso de uma estratégia, o novo herói do desporto português remeteu-nos apenas para o grande profissional, sem revolta pelo que não fez e podia ter feito, sem abrir a porta ao desejo de cumprir a expectativa seguinte, ou seja, a de alimentar outros sonhos que motivam os adeptos. Assim, enquanto não reage aos estímulos exteriores, estamos condenados a aguardar que o Manolo (Sainz), seu director desportivo, se decida a dizer-lhe para cumprir a obrigação de ganhar, no mínimo, uma Volta a Portugal, ou que não o mande parar numa qualquer montanha para socorrer companheiros tão ilustres quanto empenados.

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