Bandeira de uma revolução

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Bandeira de uma revolução
Bandeira de uma revolução

1 - Se o futebol tem início no médio-centro, como defende José Antonio Camacho, então nenhuma das seleções que estão no Mundial começa tão bem como a Itália. Aos 35 anos, Andrea Pirlo confirmou com a Inglaterra que é o melhor naquela função, consolidando o estatuto de figura mais representativa do lote restrito que marcou a história do jogo a partir da zona central. Ele e Xavi são descendentes diretos de uma dinastia que teve em Guardiola, Redondo e Paulo Sousa expoentes máximos de um tempo (finais dos anos 80 e quase toda a década de 90) que, entre muitas outras coisas, serviu para engrandecer tarefa que alguns treinadores denegriram em nome de valores menores como limpeza, músculo e despudor.

2 - Pirlo lança as bases de um estilo que orienta a equipa – já lá vai o tempo em que a squadra azzurra se orientava por uma proposta mesquinha, traiçoeira, que mutilava o futebol como espetáculo e expressão de arte. Hoje, as equipas que defende (Itália e Juventus) giram à volta do seu génio criativo, expresso pela via do engano mas também pela perfeição com que executa o senso comum. É aí que entra a cumplicidade dos companheiros, que nele acreditam e nele se inspiram. Quando pega na bola, levanta a cabeça e se propõe acionar o jogo, tudo pode acontecer, porque não há limites para os milagres na colocação à distância e na precisão das solicitações para zonas mais adiantadas e problemáticas. Quando Pirlo é igual a si próprio a conclusão é sempre coletiva: “Que bem joga a Itália!”

3 - Está em campo com a altivez de quem encara o jogo como se estivesse no segundo balcão, com panorama para decidir bem. Sente-se herdeiro dos melhores médios-centro da história e joga com a distinção que carateriza essa raça de artistas. Exerce como líder silencioso, dando o exemplo, porque sacraliza o treino e aprende todos os dias; porque é jogador de manhã, à tarde e à noite e gosta tanto da bola que deseja sempre tê-la nos pés, mesmo quando está debaixo da mais intensa pressão. É tão correto a decidir e tão perfeito a executar os gestos mais complicados que causa desde logo um impacto significativo: despoja o futebol de toda a impureza. Na zona de definição, é tão cordial e elegante; revela tanta nobreza e talento que até os adversários se sentem reconfortados por repartir o relvado com ele.

4 - Pirlo é o símbolo de uma Itália que recusa o legado do catenaccio e tem procurado destruir a ideia segundo a qual jogava apenas para sobreviver. Ele é a bandeira de uma revolução tranquila que fez evoluir a inteligência tática, entendida como fim em si mesmo, para suporte de um conceito que visa aproveitar o que o futebol tem de mais apaixonante: sentido de aventura; orgulho de lutar de peito aberto; disponibilidade para libertar o instinto e agir de modo a criar condições para a exaltação criativa de cada um. Pirlo é o rosto de um ciclo que permitiu à squadra ser resgatada, primeiro por Marcello Lippi e agora por Cesare Prandelli, ao tempo das cavernas. A Itália agradece-lhe a recuperação da dignidade; o futebol rende-se a tanto talento, seguro de que vai ficar a dever-lhe uma “Bola de Ouro”. Aquela que, em 2006, entregou a Fabio Cannavaro.

O que mudou ao minuto 65

Hoje e sempre há jogos (cada vez menos, é verdade) decididos pelo talento de um homem só

Messi enredara-se numa teia de sucessivos erros, provocados pelo acerto adversário, pela sua própria desinspiração e pela hostilidade de bancadas que o temem, logo tudo fazem para desestabilizá-lo. A ideia de que o resultado também pode ser coisa de um génio perturba quem analisa o futebol na eterna busca de explicações científicas e táticas para cada facto. O que mudou aos 65 minutos do Argentina-Bósnia? La Pulga não quis saber do cenário de dificuldade, pegou na bola e fez um daqueles golos que, nos dias de hoje, só ele sabe marcar. Apenas isso.

O génio delicado de Arjen Robben

A Holanda mostrou argumentos como outsider muito perigoso. Um deles absolutamente temível

Robben suscita duas sensações extremadas: fascínio pelo futebol grandioso que lhe confere lugar entre os melhores do Mundo; desperdício de um génio que raramente se expressa em períodos muito longos. Há dez anos cruzou-se no Chelsea com José Mourinho, que se fartou das pequenas mazelas, das dores sem razão, dos maus jeitos nas costas... É delicado como um cristal e diminui-se muitas vezes sem razão aparente. A verdade é que se jogar no próximo mês como frente à Espanha será mais fácil medir a sua dimensão como craque. E a Holanda terá uma palavra relevante a dizer no Mundial.

Podiam ter sido mais de quatro

As coisas que nascem tortas tarde ou nunca se endireitam. O estado de alerta foi decretado

A tragédia com a Alemanha conheceu responsabilidades nas mais diversas dimensões: um árbitro miserável, incompetente, demagogo e preconceituoso, sintetizado em duas decisões que definem o seu trabalho (penálti a favor dos alemães e expulsão de Pepe); muitas falhas individuais acumuladas que impediram o coletivo de funcionar; a infelicidade de lesões que limitaram ainda mais a intervenção de Paulo Bento. Tanto fator desfavorável seria sempre difícil de ultrapassar, incluindo com adversários mais modestos. Como do outro lado estava a Alemanha, foram quatro. E podiam ter sido mais.

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