Basquetebol, Jogos e política

Em 1968, fui convidado para integrar a equipa olímpica de basquetebol dos Estados Unidos. Talvez a maioria das pessoas não saiba como foi problemático o ano de 1968 na América. O movimento pelos Direitos Civis estava a lutar contra um asfixiante racismo nacional, muitas vezes à custa das vidas dos que lutavam. Naquele ano, um protesto num salão de bowling só para brancos na Carolina do Sul terminou com três estudantes universitários mortos. A famosa cantora afro-americana Eartha Kitt denunciou a Guerra do Vietname durante um almoço na Casa Branca com Lady Bird Johnson. Juntas, as pessoas negras estavam a encontrar a sua voz, voz que tinha sido reprimida durante muito tempo pelos poderes estabelecidos.

Em 1968, também eu estava à procura da minha voz, recusando o nome e a religião do esclavagista que foi proprietário dos meus antepassados e convertendo-me ao Islão. Aos 22 anos, estava dividido entre o meu amor pelo basquetebol, o meu sincero patriotismo e o desejo de juntar a minha voz ao coro daqueles que buscavam uma América melhor. Não só negros, mas também mulheres, através do Movimento de Libertação das Mulheres e latinos, através dos Trabalhadores Agrários Unidos. Por isso, decidi não fazer parte da equipa porque não queria que a minha presença parecesse um apoio às injustiças sociais que o país estava a enfrentar na altura. Em 2016, 48 anos depois, o Mundo está prestes a viver a 31.ª edição dos Jogos Olímpicos de verão, o que é um bom momento para refletir sobre a força da equipa de basquetebol norte-americana, a influência de alguns jogadores chave e se os protestos políticos dos desportistas fazem ou não sentido.

A equipa dos EUA tem 12 dos jogadores mais dinâmicos da NBA. Ainda que os dois de quem mais se fala, LeBron James e Stephen Curry, não estejam na equipa devido a uma extenuante batalha nas finais da NBA, cada jogador da equipa atual é um desportista excecional, experiente e sabe como elevar o seu rendimento sob pressão. Grandes jogadores nem sempre fazem uma grande equipa, especialmente quando há egos em jogo. As superestrelas nem sempre formam uma superconstelação. No entanto, tenho confiança que estes homens coloquem a equipa e o país em primeiro lugar e que veremos um basquetebol fascinante como poucas vezes vimos.

Colocar o país acima de tudo, nem sempre significa ignorar silenciosamente os problemas. A América tem uma história rica de atletas que se manifestaram contra as injustiças. Em 1968, os atletas afro-americanos Tommie Smith e John Carlos levantaram o punho em apoio ao movimento ‘Black Power’, que defendia um tratamento igualitário para os negros nos Estados Unidos. No ano passado, LeBron James mostrou a todos que vive num Mundo maior do que o campo de basquetebol, quando ele e outros jogadores vestiram camisolas que diziam "I Can’t Breathe" [Não consigo respirar] enquanto aqueciam para um jogo. Este protesto silencioso era para chamar a atenção sobre as últimas palavras do afro-americano Eric Garner, que, desarmado, morreu sem razão às mãos de agentes de polícia brancos em Nova Iorque. Manifestar-se desta forma corajosa, arriscando popularidade e contratos publicitários, para consciencializar o Mundo sobre uma injustiça social é simplesmente o tipo de patriotismo que representa os Estados Unidos.

Será que os desportistas nos Jogos do Rio devem usar o evento para expressar os seus sentimentos políticos? Quer se queira quer não, os desportistas são modelos para uma juventude influenciável, que os vê não só como jogadores excecionais mas também como exemplos excecionais. É com isto em mente que cada desportista deve examinar a sua própria consciência e decidir se os Jogos são ou não o lugar adequado para tomar uma posição política. Se o fizerem, devem fazê-lo pacificamente e com respeito pelos outros. E também devem estar preparados para aceitar as consequências destas ações. Uma mulher corajosa, Ibtihaj Muhammad, esgrimista norte-americana, fará uma declaração pela liberdade religiosa simplesmente com a sua presença. A sua insistência em manter as suas crenças muçulmanas, usando um hijab enquanto compete, é a essência da filosofia americana de inclusão. Os protestos políticos dos desportistas servem simplesmente para nos lembrarmos de defender os nossos próprios valores.

Sei que é natural para as pessoas apoiarem os desportistas que representam o seu país, tal como eu vou estar a torcer pela equipa de basquetebol dos Estados Unidos. Mas ganhe ou perca, eu sinto-me sempre inspirado e feliz com demonstrações de desportivismo, dedicação e determinação, independentemente do país de onde venham os desportistas. Uma atuação extraordinária será uma vitória para todos nós.

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