Benfica é o espelho do futebol-negócio

Adicione como fonte preferencial no Google
Benfica é o espelho do futebol-negócio
Benfica é o espelho do futebol-negócio

O Benfica entra amanhã em campo para discutir a conquista de mais um título (Supertaça) e no onze não vão estar Oblak, Garay, Siqueira, Markovic e Rodrigo, cinco titulares da equipa que conquistou o título de campeão nacional. Nos respectivos lugares vão estar Paulo Lopes (ou Artur), Jardel (ou César), Eliseu, Salvio e Derley (ou Bebé). Quer dizer: o alarmismo instalado entre os adeptos do Benfica, em razão da torrente hemorrágica que tomou conta do plantel encarnado, é algo que pode atenuar-se no jogo de amanhã com o Rio Ave, porque a presença do “capitão” Luisão dá sempre garantias ao lugar-tenente que joga a seu lado (César ou Jardel); Eliseu, mesmo em fase de regime (emagrecimento), dá garantias próximas do que valia Siqueira; Salvio não possui a velocidade de Markovic, que promete ser uma estrela na Premier League, mas é um jogador de primeiríssimo plano; Derley não tem a mobilidade de Rodrigo, mas reúne condições para se afirmar no espaço ofensivo; e se, em vez de Derley, Jesus optar por Bebé, optará muito bem, porque Bebé tem tudo para se tornar num jogador de referência do Benfica 2014-15. Quer dizer: em tese e no imediato, não obstante alguma quebra de qualidade, aquelas saídas podem não ser tão dramáticas quanto aparentam... O Benfica Bom pode dar lugar, enfim, a um Benfica Bonzinho... Contudo, há outros aspectos a considerar, e isso pode fazer, pela negativa, toda a diferença: Paulo Lopes não jogou um único jogo completo na pré-temporada e Artur está, outra vez, a atravessar uma fase má e deve ter perdido todo o espaço no plantel; Luisão e Jardel não fizeram a pré-época; Enzo Pérez e mesmo Gaitán podem estar de saída e isso, quer se queira quer não, afecta sempre o rendimento. Acresce que o Rio Ave se apresenta moralizado.

Em síntese: o jogo de amanhã é muito importante para os encarnados, porque terá o condão de aliviar a concentração de nuvens que se abateu sobre o futebol do Benfica ou provocar uma sensação de dramático desmantelamento, com consequências para o resto da temporada. A questão, contudo, não pára aqui: e se, como tudo indica, Enzo Pérez sair até final de Agosto? E se o mesmo acontecer com Gaitán? Aqui, não obstante a procura que os encarnados estão a realizar no mercado para reforçar o plantel (guarda-redes, médio, avançado), o caso muda de figura. A avaliação mais definitiva só pode ser feita depois de conhecidos os nomes dos reforços, mas parece indiscutível que as mudanças abruptas realizadas no plantel-campeão só são boas para os adversários. Por isso, a questão que se coloca faz todo o sentido: que está a acontecer ao Benfica?

O Benfica está debaixo de uma grande pressão financeira, agravada com a situação desencadeada no BES. Talvez se possa dizer que o Benfica é o clube português que mais sofre com a queda da família Espírito Santo. As lógicas de (re)construção de plantéis são mandadas às malvas porque o Benfica está obrigado a vender para satisfazer compromissos, que se tornaram mais complexos desde que, por razões de procura de liquidez, o Benfica se deixou enlear na teia dos fundos. Os fundos têm a vantagem de aumentar pontualmente a liquidez, mas são inimigos do planeamento. Só assim se compreende a perturbação das últimas pré-épocas do Benfica, sempre com demasiadas alterações... Vieira sabe que, para este ambiente financeiro, não poderia ter melhor treinador do que Jesus para o efeito... Ele molda-se, gosta dos desafios e molda os jogadores e sabe ainda que, para poder auferir aquele ordenado, não pode estar com esquisitices... No meio dessa pressão financeira e no turbilhão em que o Benfica se transformou, num processo mal oleado e mal articulado entre todas as partes (presidente-SAD-scouting-treinador), Jesus só não cede perante o princípio de que, independentemente dos jogadores que o Benfica contrata, só jogam ou ficam no plantel aqueles que ele acha estarem em condições de render de acordo com o seu modelo. Por isso, o Benfica está transformado numa espécie de heliporto, onde aterram e saem jogadores a uma velocidade vertiginosa... É também por isso – porque só joga com Jesus quem reúne um conjunto de requisitos técnicos, tácticos e físicos – que jogadores como João Cancelo e Bernardo Silva, nos quais a SAD e o presidente depositam grandes esperanças, acabam por não ter lugar no plantel... E a pergunta surge, naturalmente: então Cancelo e Bernardo Silva servem para o Valencia e o Monaco e não servem para o Benfica? Este é o ponto: alguma coisa está errada, talvez a base em que assenta o próprio negócio. E o “terramoto” BES, que promete mudar Portugal e os rosto dos protagonistas, é um bom princípio para aplicar no futebol: é preciso desbloquear o futebol e, para isso, é preciso colocar em causa a regulação/supervisão, os mecanismos (viciados) das auditorias e atacar, sem contemplações, os offshores.

JARDIM DAS ESTRELAS - ****

FC... Puerto (com Mendes)

A época passada do FC Porto serviu para demonstrar que o rei ia nu. Excesso de confiança e muito comodismo adiaram as reformas internas para inverter o rumo. O FC Porto tinha de investir na mudança. Uma mudança radical. E foi isso que fez. Transformou o plantel profundamente. A dúvida prendia-se com o músculo financeiro para o fazer. Os novos jogadores começaram a aparecer, depois de a SAD do FC Porto ter realizado a alteração mais improvável que se poderia imaginar e que consistiu em seguir o instinto do (novo) treinador. Lopetegui era, e é, uma aposta de risco, mas foi o escolhido para permitir a exteriorização do “efeito Mendes”, com consequências para o... Benfica. A espanholização do FC Porto (agora FC... Puerto) – treinador espanhol mais cinco jogadores espanhóis – traz com ela importante reforço de qualidade. O FC Porto percebeu que estava no limite e actuou. O balneário foi reconstruído à medida de Lopetegui. Só falta o FC Porto não se ter enganado em Lopetegui, que foi designado como... “salvador do regime”.

O CACTO

Tem defeito

Se os jovens jogadores portugueses não chegam (não jogam) às principais equipas portuguesas e se isso acontece com jovens de outras nacionalidades (chegam e jogam), então das duas, uma: ou algo se passa na formação dos clubes portugueses ou trazer jovens jogadores estrangeiros é um mecanismo rentável para muita gente.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade