Benfica e Sporting - que querem, afinal?
A luta que o Sporting de Bruno de Carvalho decidiu travar, abertamente, com o FC Porto e com Pinto da Costa ajudou em muito, esta época, o Benfica a percorrer o seu caminho, virado para as questões de natureza desportiva. O FC Porto teve de reforçar a sua atenção sobre o Sporting e as suas movimentações e o Sporting teve de fazer o mesmo em relação ao seu rival nortenho. O Benfica colocou-se na posição confortável de observador, mais tolerante em relação ao Sporting e às posições de um presidente recém-eleito (Bruno de Carvalho), devido ao registo histórico de relações muito tensas, às vezes brutais e massacrantes, com o FC Porto. A verdade é que, em pleno defeso, Luís Filipe Vieira, numa entrevista de balanço, visou Bruno de Carvalho, apelidando-o de mentiroso, a propósito de uma suposta conversa telefónica que o presidente do Sporting alegara ter existido e, afinal, confirmado pelo próprio, não existiu mas deu vontade de rir. Não é tempo de acabar com estas infantilidades e apostar na defesa do interesse comum que é a construção da credibilidade do futebol português?
O recreio à volta da intenção de derrubar o actual presidente da Liga, a escassos meses de novo acto eleitoral, é apenas um exemplo, entre muitos, de que o dirigismo desportivo ainda é visto como um espaço de diversão pessoal e ainda não saiu do seu estádio de “ensino primário”, contrariando as exigências e os novos desafios que se colocam ao futebol profissional e ao seu negócio.
O “assalto à Liga” foi – já aqui o escrevi – um acto de vingança para quem colocou em causa, no âmbito da gestão dos direitos televisivos, a fórmula habitualmente utilizada, de modo a confundir conceitos tão díspares como generosidade e despotismo. Os clubes, e sobretudo os mais pequenos, vítimas de chantagem funcional, deveriam estar preocupados em apurar se é viável o aumento das receitas. Estava e está em causa a libertação de um esquema atentatório da sua dignidade institucional. Os escravos não deixam de ser vítimas de escravatura pelo simples facto de os patrões os alimentarem com um prato de sopa. A ameaça de lhes retirar o prato de sopa, em cima da tentativa de se tentar construir alternativas, num regime concorrencial mais aberto, deita por terra a tese da generosidade e do dever moral de se ser grato. O pouco interesse das transmissões televisivas dos jogos da 2.ª Liga não deve ser considerado como uma dádiva. E, se for assim, é preciso começar a reflectir a razão pela qual, perante tão minguado interesse, continua a trocar-se um chouriço por um porco e não um chouriço por um chouriço. Vejo com preocupação este estado vegetativo do futebol português, no qual ninguém consegue encontrar uma forma séria de debater os principais problemas do futebol português.
Bruno de Carvalho vem agora enfatizar a declaração de Luís Filipe Vieira segundo a qual “mais importante do que as contratações é ter as pessoas certas nos órgãos de poder do futebol”. Mas... onde está a novidade? Não é o próprio Sporting (de BdC) que vem colocando em causa a viciada independência desses órgãos? A questão de fundo não é tanto a constatação desse facto, mas a vontade de se acabar com esses “arranjinhos”. A mera inversão de poderes deixa o futebol português tão ou mais podre do que neste momento se apresenta. Para nascer um novo regime é preciso enterrar o velho. E era nisso que águias e leões deveriam estar unidos: pelas reformas que garantam a verdade desportiva! Não deveriam estar do mesmo lado a concertar posições para uma Liga mais forte? Mentiras, ironias e risos são a extensão da irresponsabilidade.
NOTA – Está encerrado o “capítulo Jesus” no que diz respeito ao seu futuro imediato. Depois de avanços e recuos, e ponderadas todas as possibilidades, Jorge Jesus decidiu avançar para o cumprimento do contrato com o Benfica, que termina em 2015. É uma boa notícia para o Benfica, é de certo modo uma vitória do Benfica, porque o seu principal adversário, o FC Porto, adquirira a perfeita noção de que Jorge Jesus havia sido o motor de transformação do futebol benfiquista nos últimos anos e a sua saída poderia ser decisiva no processo de reabilitação dos portistas. Para Jorge Jesus pode não ter sido o melhor desenlace: ganhou pontos junto da massa adepta, mas vai ser difícil fazer igual ou superar em 2014/15 o que alcançou esta temporada. O Benfica precisa de encaixar receitas de vendas de jogadores e o plantel acusará algumas baixas. Jesus gosta de desafios, mas este era, compreensivelmente, o momento de sair. Para ganhar (mais) dinheiro, para sair em alta e para desfazer a ideia de que, pelo seu perfil, só funciona em Portugal.
O CACTO
Intocável
Aproveito este espaço para fazer a minha declaração de interesses sobre a Selecção Nacional, agora que se aproxima o Mundial. A minha posição de sempre em relação à FPF foi na defesa de projectos. Projectos que se associam naturalmente a pessoas. Critiquei durante anos a FPF por se assemelhar a uma mega agência de viagens. Sem rumo nem estratégias. A FPF modernizou-se e profissionalizou-se. Com ajudas externas. Hoje, é muito mais fácil gerir. As contribuições da FIFA e da UEFA aumentaram exponencialmente. Neste momento, não há carências nem lacunas. As condições dadas aos profissionais, numa estrutura profissional, são as melhores, sem constrangimentos orçamentais. Por isso, entendo que este é o primeiro Mundial em que Portugal se vê rodeado das melhores condições de sempre para alcançar bons resultados. Deveria, por isso, haver um clima de maior exigência e compromisso. O que se ouve e vê? Ao contrário, um discurso de desresponsabilização, porque já tivemos Eusébio e Figo... mas em condições totalmente distintas (esta parte foi ignorada).
Quero o melhor para a Selecção Nacional mas quero, igualmente, que ela se coloque num plano de ‘maioridade profissional’. Intocável? Não é. E só com uma crítica exigente e desalinhada podemos ambicionar a mais e melhor. É assim em democracia. Pelo menos, deveria ser.
