Benfica embateu no muro da utopia
O Benfica abandona as competições europeias, prematuramente, numa época em que pode sagrar-se bicampeão nacional, o que já não acontece há 30 (!) anos. Em tese, sem competições europeias e com um plantel indiscutivelmente mais curto do que nas épocas anteriores, o Benfica reúne agora condições para gerir melhor o calendário, com o objectivo de alcançar aquele desiderato. Esse é o lado positivo, se no final o Benfica conseguir conquistar o título nacional duas vezes, consecutivamente. Mas, mesmo projectando uma eventual exaltação decorrente da mais importante vitória a nível doméstico, há sempre que contabilizar o prejuízo financeiro. Esse está assegurado.
Desportivamente, não há forma, todavia, de contornar uma evidência, comum ao “Benfica de Jorge Jesus”: a equipa vinha tendo um registo interessante na Liga Europa, mas não responde na Champions. E essa “não resposta” na Liga dos Campeões, tão prematuramente, ao longo desta época, assume foros de maior comprometimento porque, com ela, acontece também a eliminação da Liga Europa. Em síntese: em Novembro, não há “Benfica europeu”. Este afastamento do Benfica da Europa acontece, precisamente, num momento em que já se gerara a convicção de que o actual plantel do Benfica é o mais fraco das últimas épocas. Não porque não tenha mantido alguns grandes jogadores (Luisão, Maxi, Salvio, Enzo e Gaitán), mas fundamentalmente porque não soube ou não conseguiu compensar, indiscutivelmente e no tempo certo, as saídas de Oblak, Garay, Siqueira, Matic, Markovic e Rodrigo, sem esquecer ainda André Gomes e as lesões de Sílvio, Fejsa e Rúben Amorim, que ajudaram a condicionar ainda mais as escolhas.
Para um plantel que perde tanto valor e só consegue valorizar dois elementos (Talisca, de uma forma brutal, e Eliseu, entretanto a contas com uma lesão), temos de convir que querer mais e melhor, nestas condições, é uma utopia. Que Jorge Jesus criou uma “escola de rendimento” na Luz já sabemos; que os jogadores por ele trabalhados sabem de cor e salteado o que têm de fazer em campo, também; que a exigência que o treinador do Benfica coloca nos treinos e nos jogos afasta, à partida, um conjunto de opções que, noutro enquadramento, seriam mais bem aproveitadas, não deixa de fazer algum sentido. É também por isso que, na competição nacional, o Benfica vem mostrando alguma capacidade de resposta, embora sem a eloquência do passado recente. Para os sonhadores: nem o Benfica da época passada tinha capacidade para chegar à final da Champions, em Lisboa, nem o Benfica deste ano tinha argumentos para ir mais longe na prova. Preto no branco: a surpresa maior foi não ter conseguido arranjar um lugar “na II Divisão europeia” (Liga Europa).
Agora é fácil dizer que o problema é do treinador. Agora é fácil apontar as debilidades que Jorge Jesus apresenta, mas a memória não pode ser curta nestes momentos. É bom não desprezar que o “núcleo duro” do plantel do Benfica perdeu peso. E basta olhar para o banco do Benfica em São Petersburgo: César, Benito, Cristante, Ola John, Pizzi e Derley. Alguma vez o Benfica poderia ir longe na Champions com um banco destes? Só em sonhos!... Utopias!
O Benfica começa a fraquejar numa época estrategicamente vital. Há um debate interno, na Luz, meio surdo, que tenderá a multiplicar-se: Vieira quer mais jogadores da formação na equipa principal, mas só entram na equipa principal os jogadores que Jesus entende que reúnem os parâmetros suficientes para esse efeito. O poder de Vieira tem ficado, na prática, à porta da cabina. Com um treinador menos fixado nas suas ideias e mais vulnerável aos sinais emitidos pela SAD, já o Benfica teria colocado outro tipo de maquilhagem no rosto. As mensagens presidenciais nos últimos relatórios da SAD e as reproduções públicas das virtualidades do Seixal são sinais que não devem ser ignorados: Vieira pode estar a preparar o pós-Jesus. E isso não tem a ver apenas com um certo monolitismo que emana da visão de Jesus; é também uma consequência do ambiente financeiro que se vive. Vieira precisa de um Benfica mais barato. O tempo não está para (mais) avarias. Mesmo com tão boas vendas, o passivo é maior do que o activo. As fontes de financiamento secaram e os compromissos abundam. É preciso redimensionar tudo e, provavelmente, reequacionar as características da equipa técnica. Mais ajustada aos tempos de crise.
Vieira acha-se numa encruzilhada: não é apenas o ajustamento do Benfica às novas realidades; é ter-se atirado para o “conforto” da relação com o FC Porto, numa época particularmente sensível para os dois emblemas. Foi um erro. Os benfiquistas não querem saber do isolamento do Sporting. Os benfiquistas querem ver quebrada a hegemonia do FC Porto...
O CACTO
Sócrates e... o futebol
Foi detido um ex-primeiro ministro. A detenção não coloca em causa, só por si, o princípio da presunção de inocência, mas o país, os cidadãos e os partidos políticos têm de se decidir entre os lamentos de que “a Justiça não funciona e não actua sobre os poderosos” e as lamúrias segundo as quais, quando alguém poderoso é detido, “ai, ai, ai, que não pode ser”, é uma humilhação e tudo não passa de um espectáculo mediático. Por estes dias, tem-se ouvido dizer “à política o que é da política”, “à justiça o que é da justiça”, mas falta acrescentar “aos negócios o que é dos negócios”. Em Portugal, passa-se rapidamente do clamor bota-abaixista, no sentido de se alcançar, até, alguma mudança, para um tom justicialista, mas quase sempre à medida dos interesses das facções. Sejam elas partidárias ou... clubísticas.
No meio de tantas intervenções assanhadas e muitas, também, ridículas, a favor ou contra o que Sócrates representa, ninguém pergunta qual é o espaço que sobra para a investigação, como forma de produzir efeitos de regulação sobre pessoas e instituições e, igualmente, de dissuasão de práticas ilícitas. Queremos ou não queremos justiça? Há interesse em melhorar as condições dos agentes judiciários? Só assim é possível separar o trigo do joio. Talvez se perceba agora por que razão o futebol não é investigado a fundo. Há sempre um Mário Soares perto de cada um de nós.
