Benfica, Sporting, Moutinho e FC Porto
Quanto vai receber o Sporting pela transferência de João Moutinho (do FC Porto) para o Monaco? A Comissão Arbitral da Liga vai decidir mas o clube de Alvalade já colocou a circular que os “juízes” frequentam os camarotes do Estádio do Dragão. As regras estão viciadas?
Bruno de Carvalho sabe que os mais fervorosos sportinguistas não gostam de alianças. Nem com o Benfica nem com o FC Porto, mas historicamente – por causa da rivalidade com os vizinhos da Segunda Circular – sempre admitiram com maior tolerância as aproximações ao FC Porto. Essa sensibilidade foi quase sempre projectada pelos presidentes do clube de Alvalade. Tirando o caso de Dias da Cunha, que até avançou com um manifesto, e exceptuando situações de escaramuças mais pessoais do que institucionais, os presidentes do Sporting foram alimentando a estratégia que mais serviu os interesses do FC Porto. Parte do sucesso de Pinto da Costa foi construído através das picardias colocadas nas relações entre o Benfica e o Sporting ou vice-versa e, neste momento, com a mudança presidencial entre os leões, vive-se uma fase diferente em Alvalade, com Bruno de Carvalho a questionar-se: o que posso perder estando de costas voltadas para o FC Porto e o que posso ganhar estando de boas relações com o Benfica?
O Sporting assume o corte de relações com o FC Porto e, inicialmente, num clima de desanuviamento em relação ao Benfica, Bruno de Carvalho corrige o tiro, quando mais recentemente vem falar de que... alianças (?), “só no dedo e com a minha mulher”. O presidente do Sporting sabe que está numa encruzilhada: não tem qualquer tipo de poder nem na Federação nem na Liga, logo não tem qualquer tipo de influência sobre as decisões nem no plano da Arbitragem nem no plano da Disciplina – os dois cadeirões onde se revolvem mais de 75% das coisas do futebol.
Bruno de Carvalho, astuto como é, já percebeu que não vale a pena estar com romantismos e um dos mais recentes episódios relacionados com poderes e alianças demonstra que o Sporting também está desconfiado com a Comissão Arbitral da Liga que vai decidir a divergência sobre o montante que o FC Porto deve pagar ao Sporting, relacionado com a venda de Moutinho ao Monaco. Talvez tenha sido isso que levou o jornal “Sporting” a dar conta, refugiando-se em fontes próximas do processo, da “presença assídua” nos camarotes do Estádio de Dragão de alguns dos membros que vão decidir a divergência entre o FC Porto e o Sporting, no caso Moutinho.
Quer dizer: os leões já estão a preparar os seus apaniguados para algo que pode vir a acontecer: o Sporting não receber um pouco mais de 4,6 M€, resultantes da transferência de João Moutinho do FC Porto para o Monaco, e ao abrigo do acordo celebrado entre portistas e sportinguistas em julho de 2010, quando o Sporting vendeu Moutinho ao FC Porto por 11 M€, ficando de receber mais 25% numa futura transferência sobre a mais-valia apurada. A esse valor – defendem os leões – deve somar-se 1,125 M€, o qual representa 5% do valor total da transferência, enquadrado no chamado Mecanismo de Solidariedade. O FC Porto não quer pagar os 3,5 M€, alegando que é preciso descontar 2,485 M€ resultantes de pagamentos à Gestifute (de Jorge Mendes).
Parece evidente que esta interpretação só parece ser possível por causa das más relações entre FC Porto e Sporting, sobretudo se for certo – como alegam os leões – que no acordo é dado um exemplo prático, segundo o qual, se Moutinho fosse vendido por 20 M€, o Sporting teria de receber 2,225 M€, isto é, 25% sobre a mais valia de 9 milhões. Quer dizer: se Bruno de Carvalho não fosse o presidente, o FC Porto teria a mesma interpretação? Se sim, então aí está o que valem as “boas relações institucionais” – apenas enganos.
Há ainda a questão do entendimento entre o FC Porto e o Monaco, no que concerne à fixação do preço dos passes de Moutinho e James Rodríguez. O Monaco entrou na jogada do FC Porto. A interpretação monegasca foi generosa. O aconselhamento também. Por aqui se vê, também, que o objectivo era “passar a perna” ao Sporting. A independência dos leões, reivindicada pela nova presidência, tem um preço. Que está à vista, fruto de anos e anos de mansidão.
NOTA – O presidente da FPF, Fernando Gomes, diz que o processo da “Bola de Ouro não é transparente” e tem razão. Não era e, agora, ainda é menos, porque a sensação que se colhe é que Blatter, agora, quer rectificar um erro (a glosa sobre Cristiano Ronaldo) com outro erro (“promover” a vitória de Ronaldo). Mas terá Fernando Gomes legitimidade para falar em transparência quando, sob a sua direcção e patrocínio, nada fez e nada faz para um caso de condenação em tribunal por fraude fiscal (João Vieira Pinto) deixar de brilhar na FPF – uma instituição de utilidade pública? Transparência e credibilidade? Perdeu-se a vergonha por completo neste país!
O CACTO
Fonseca e as culpas
O “Porto de Fonseca” fez um bom jogo esta época (no Dragão, com o Sporting) e um arranque positivo, com a conquista da Supertaça. Em Viena, para a Champions, deu sinais de sub-rendimento preocupante e, a partir daí, altos e baixos, mais baixos do que altos. O treinador não empolga, não motiva e tem um discurso fraquinho, mas será que os problemas começam e acabam em Paulo Fonseca? Não o creio e entendo que a SAD portista vem revelando perigosa atracção pelo risco: na escolha dos treinadores e, também, na (re)construção dos plantéis.
Ninguém consegue, fulminantemente, dar experiência a quem não a tem (experiência de altíssima competição, como é o caso da Champions) e, por mais forte que seja a estrutura de apoio, há coisas que não se resolvem com um “abrir de olhos”... A “estrutura” não se impôs na gestão dos casos de Fucile e Izmailov (que raio de tolerância!!!), Iturbe foi afastado, Kelvin desaproveitado e Josué, Herrera, Carlos Eduardo e Licá, todos juntos, não fazem um grande jogador. Sobram Helton, Danilo, Otamendi, Mangala, Alex Sandro, Fernando, Lucho e Jackson Martínez, isto é, 8 a fazerem o trabalho de 11. Fonseca não sabe muito bem o que fazer com Defour, Varela e Quintero e não se compromete, tacticamente. É muita coisa junta e Fonseca tem culpas, mas não todas.
