Benfica TV vai... "abortar"?
Muito se tem falado da “aliança” ou de simples “entendimento” entre o FC Porto e o Benfica no processo que conduziu Luís Duque à presidência da Liga. É uma matéria sensível porque os respectivos presidentes, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira, já foram muito “amigos” para depois se transformarem em viscerais “inimigos” e, no período mais assanhado, foram ditas coisas muito desagradáveis, que nem Maomé diria do toucinho.
Os adeptos olham para a aproximação e não entendem a incoerência, principalmente porque percebem que, no meio dos “macro” objectivos a alcançar, também deu jeito retaliar um Sporting insubmisso e incómodo.
A pergunta que se coloca é essencialmente esta: que faz o Benfica, empenhado durante muito tempo em denunciar os abusos e as contradições da organização do futebol em Portugal, a contribuir para que as principais alavancas do poder não mudem e fique – nos aspectos essenciais – tudo na mesma?
Há duas razões maiores: 1) Os problemas comuns das duas SAD, que não conseguem reduzir significativamente custos operacionais (no caso do Benfica até aumentaram, incluindo os gastos com pessoal) e se debatem com questões comuns de endividamento e de crescente dificuldade de financiamento; 2) A consciencialização de que o tema da centralização dos direitos televisivos dificilmente poderá escapar à gestão feita pela Liga, curiosamente um dos principais “cavalos de batalha” do ex-presidente Mário Figueiredo, engolido pela onda de boicotes que lhe foi movida – como dizer? – pelos alcatruzes da nora. O que significa algumas reservas sobre a exequibilidade (enquanto negócio) da mirífica Benfica TV...
Vamos então ao que interessa: SITUAÇÃO FINANCEIRA DOS CLUBES/SAD – São agora conhecidas as contas das SAD do Benfica, FC Porto e Sporting e elas apontam para um cenário de FALÊNCIA TÉCNICA que não pode deixar de preocupar os responsáveis. Já se sabe: o Sporting é a SAD a apresentar o quadro mais complexo, que nem o melhor resultado dos últimos cinco exercícios consegue desanuviar, uma vez que os capitais próprios negativos continuam acima dos 100 milhões de euros – uma barbaridade.
O FC Porto apresentou o pior resultado dos últimos onze exercícios, e a isso não fica alheio o facto de, ao contrário do que vinha sendo habitual, ter tido um encaixe de apenas 24M (contra 76,5M€ em 2012-13), com a venda de jogadores (Otamendi/Iturbe/Fernando, principalmente).
Ao contrário do FC Porto, a SAD do Benfica apresentou os melhores resultados desde 2003-04 (inclusive), uma vez que há cinco exercícios que não conseguia resultados positivos. Mas, mesmo assim, é de questionar como é que num ano excepcional do ponto de vista da venda de jogadores (75,6M€), com êxito desportivo (campeão nacional, vencedor das Taças de Portugal e da Liga e finalista da Liga Europa), e ainda com os primeiros resultados da Benfica TV a produzirem efeitos sobre as contas globais, só se obtém um resultado (positivo) de 14M€? A resposta está contida, em grande parte, com o agravamento dos custos operacionais e com o aumento dos gastos com pessoal, resultante dos 11M€ “consumidos” pela BTV.
MODELO DA CENTRALIZAÇÃO/BTV – Com dívidas bancárias astronómicas, e com meios de financiamento muito limitados, o futuro não é nada risonho. FC Porto e Benfica adquiriram, no limite, essa consciência, porque nenhum está em condições de atirar pedras para a casa de cada um. O endividamento, a falta de soluções e a certeza de que, com este modelo, os passivos não diminuem, mais a ameaça do fair play financeiro, obrigam a... travões a fundo. A “solução Duque” foi uma forma de tentar reactivar o que resta dos clássicos patrocinadores, devolver a Liga ao controlo dos clubes sem riscos de “impulsos reformistas” e preparar a única forma de aumentar o “bolo” global das receitas, através da centralização dos direitos televisivos. Entretanto, há muita coisa que permanece inexacta, desde a maturidade dos contratos com a PPTV, passando por questões concorrenciais (os clubes não ganhariam com uma luta saudável entre a NOS e a MEO?...) e ainda pelo papel da SCML e os litígios em curso. Meus amigos, o futebol está falido e, tal e qual como aconteceu com o país, a ameaça de bancarrota não é um delírio alarmista: é uma realidade à vista. Perante isto, só há uma alternativa: juízo, muito juízo – e as SAD têm de reduzir, drasticamente, como já o fez o Sporting, os seus custos operacionais.
Neste contexto, num universo de menos de 1 milhão de subscritores de canais de futebol pagos, porque a BTV nunca vai conseguir transmitir mais jogos da Liga portuguesa do que os seus próprios jogos em casa, o Benfica e Vieira parecem começar a ganhar consciência de que... a centralização é o caminho. A BTV já deu o que tinha a dar. É só fazer as contas.
Ronald'ouro
Terceira Bota de Ouro (iguala Messi), mais um troféu. O alto rendimento de CR7 é absolutamente notável. É um jogador único, o protótipo do futebolista-atleta. Tudo começa na cabeça dele: a obsessão pela perfeição física que dá suporte ao lado técnico e estético. Ponto a favor: a leitura (certa e mais humilde) de que tem feito tudo para convencer os mais cépticos. E – quem diria? – tem o Real Madrid a seus pés.
Assessores
Há assessores e assessores. Não é de agora, mas está a crescer no futebol português uma raça de assessores que fazem tudo para perder o respeito por si próprios e pela sua história profissional. Contratados pelos clubes, num ambiente cada vez mais precário e difícil, esquecem-se de tudo o que aprenderam quando estavam “do outro lado”. As conferências de imprensa estão transformadas em momentos de intolerância, em que os perguntadores ou são pré-seleccionados ou só são benquistos se forem dóceis e colaborantes. Já não bastava a informação clubitizada e, portanto, parcial. Esta visão totalitária, sectária e anti-democrática não enobrece ninguém. Temos casos, no Mundo, em que os “justiceiros” querem fazer prevalecer as suas razões pela instauração do regime do medo. Um país sem uma “imprensa livre” não tem qualquer futuro. E já basta o que basta...
