Bento foi apenas mais um equívoco

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Bento foi apenas mais um equívoco
Bento foi apenas mais um equívoco

A incompetência revelada no Mundial já fez três baixas: dois médicos e o seleccionador. A verdade, porém, é que a incompetência é, também, manifestamente directiva – e, desse ponto de vista, ainda não houve consequências. Ambas as partes não quiseram revelar quem despediu quem. Percebe-se. Ninguém quer ficar demasiado comprometido e, já agora, talvez fosse importante a uma organização como a FPF, que gere e utiliza dinheiros públicos, ter mais cuidado com os contratos. Esta estória das indemnizações, no futebol, começa a ter contornos de imoralidade.

O presidente Fernando Gomes tentou contrariar até ao limite o que apenas não é óbvio a quem não quer ver. O presidente da FPF acreditou que, no pós-Mundial, e com uma qualificação relativamente facilitada pelo formato da fase de qualificação para o Europeu, os seus erros iriam passar despercebidos. E quais foram esses erros? Apostar em Paulo Bento como se fosse “um dos melhores treinadores do Mundo”. Mesmo dito e redito, e mesmo colocando máquinas de marketing a replicar essa ideia, era fácil concluir que estávamos perante uma sentença exagerada e sem qualquer adesão à realidade. O homem frio e calculista, o dirigente-gestor, não viu isso e quis acreditar naquilo que provavelmente lhe fizeram acreditar. Mas é exactamente nessa área, a da gestão, que não se entende a renovação do contrato de Paulo Bento antes do Mundial. A quem quis Fernando Gomes dar uma satisfação? De quem teve medo? Foram erros e mais erros e, perante a evidência de um Mundial de fracasso, quis relativizar. É um costume muito “tuga”. Aquele comportamento desportivo no Mundial foi uma consequência de apostas erradas, num quadro de excelentes condições dadas a todos os profissionais, cuja estrutura é a mais cara de sempre na história da FPF.

Com o afastamento de Paulo Bento, o rescaldo do Mundial não fica concluído. A incompetência, primeiro, dos médicos, e agora do seleccionador, teve um preço. E a incompetência directiva? Não fica demonstrado à saciedade que as apostas e os diagnósticos de Fernando Gomes falharam redondamente? Considerando o discurso que fez dois meses depois do fim do Mundial, a partir do qual a incompetência acabou por saltar do guião (uma aparente manifestação de humildade acabou por se transformar numa arma de arremesso), estava tudo preparado para se dar uma vida artificial a Paulo Bento. A derrota frente à Albânia e, mais do que a derrota, a forma como Portugal exibiu as suas lacunas e desorientação, precipitaram o desenlace. Fernando Gomes quis enganar-se a si próprio antes de projectar em nós qualquer tipo de engano, mas a realidade abateu-se sobre a cadeira presidencial. A equipa já não reagia e as zonas de conforto construídas à volta do seleccionador também haviam aberto brechas comprometedoras.

Parece-me obrigatório que Fernando Gomes assuma, igualmente, as suas responsabilidades. No mínimo, deve um pedido de desculpas aos portugueses. Porque os erros foram demasiados, foram em catadupa, e ninguém nos garante que tenham cessado, em razão de uma política de comunicação igualmente desarticulada. Os portugueses continuam a não perceber as tarefas que estão entregues a Humberto Coelho e João Pinto. Passeiam apenas o seu nome e aquilo que significaram como (grandes) jogadores? Não teria Humberto Coelho que se revelar mais distintivo em relação aos dirigentes associativos? Não era essa uma das debilidades que os homens do futebol encontravam nas estruturas? Então, onde está a mais-valia que eles transportam para dentro dessas estruturas? Há muitas perguntas ainda sem resposta em relação à participação de Portugal no Mundial.

Não é com menos respeito que defendi a ideia segundo a qual Paulo Bento teria feito muito melhor a si próprio e, consequentemente, ao futebol português se tivesse dedicado estes quatro anos em que esteve à frente da Selecção Nacional a ganhar mais experiência no terreno, a tarimbar, e a usar o cimento necessário para conquistar mais prosélitos e a respectiva respeitabilidade. Deveria ter mostrado outra humildade perante tão frágeis fundações. Mas essa verificação não invalida o reconhecimento de que a mera substituição de seleccionador, embora ajude, não resolve tudo. A FPF precisa de um projecto sério e não pode ser apenas um sítio onde pessoas ganham dinheiro fácil. Sem qualquer tipo de exigência e escrutínio.

A Selecção Nacional tem de voltar a ser um espaço de identificação dos portugueses. Por isso, as escolhas necessitam de ser entendidas. E, para serem entendidas, é bom que se saibam explicar. Bento foi apenas mais um equívoco.

JARDIM DAS ESTRELAS - ****

3xTalisca é igual a quantos milhões?

Jorge Jesus tem o dom de olhar para os jogadores e perceber o que eles valem e podem dar. Com tantas saídas e entradas e com a instalação (pública e... prematura) de uma ideia de caos, Jesus não entrou em aventuras. Não mexeu naquilo que foi possível não mexer (Luisão-Enzo-Salvio-Gaitán-Lima), colocou Jardel no lugar de Garay, Eliseu na posição de Siqueira e não teve dúvidas em dar a titularidade, desde o começo (!) a um “minino” de 20 anos chamado Talisca. E, ontem, Talisca mostrou-se... no campo todo. Grande pulmão, sentido de baliza e o posicionamento certo de um jogador que sabe, através do seu técnico, que a tarefa de um “9,5” não é apenas ser o principal apoio do ponta-de-lança. E é esta ideia de modernidade táctica que faz de Jorge Jesus um grande treinador. O Benfica fez cinco golos no Bonfim, mas, apesar das debilidades do Vitória, o que mais impressionou foi a capacidade da equipa encarnada no momento da recuperação da bola. Só com um bom comportamento na acção defensiva (pressão imediata sobre o portador da bola, com o objectivo de encurtar os espaços ao adversário, de uma forma mecânica e... global) é possível ganhar dimensão atacante. É nisto que as equipas de Jesus se distinguem. Fica a pergunta: quantos milhões vai Talisca render ao Benfica?...

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