Bernardo tem o toque dos deuses
1 Há meia dúzia de anos, Fernando Chalana, um dos poetas mais geniais da história do futebol, anunciou deslumbrado o aparecimento de um profeta: "Há um miúdo, lá no Seixal, que vai ser o melhor jogador português. É canhoto, tem um talento do outro mundo e os miúdos chamam-lhe Messi." "E vocês, treinadores, o que pensam disso?", perguntei para perceber a extensão da descoberta: "Achamos que eles têm razão. É um fenómeno. Às vezes olho para ele, nos treinos e nos jogos, e revejo-me no jeito como finta e conduz a bola." O menino era Bernardo Silva, elemento de um futebol que já só faz parte da nossa memória coletiva; um futebol que, aos poucos, nos escapou entre os dedos, em nome dos benefícios da uniformização e das rotinas que beneficiaram conceitos associados a fábricas de produção em série.
2 É incrível a velocidade com que conduz em engarrafamentos e nas vias rápidas que ele próprio inventa para acelerar; chega a parecer inconcebível que passe por adversários armados até aos dentes, preparados para o abater a qualquer preço, como se fossem bonecos sem vontade própria; é fascinante que, mesmo em circunstâncias de elevadíssimo grau de dificuldade, pinte quadros que o catalogam como artista de outro mundo, um génio cada vez mais raro. Nas viagens alucinantes por toda a frente de ataque, a bola é uma parceira de sempre, feliz pelo modo como é tratada naquele pé esquerdo abençoado – a harmonia entre eles configura pacto de cumplicidade, lealdade e obediência. É delicioso vê-lo passar por terrenos minados, sob vigilância implacável de mercenários sem pudor, como se estivesse a passear no quintal de sua casa.
3 A primeira imagem é a do inconsciente que arrisca a saúde mas logo evolui para o iluminado que estimula o talento, inspira-se com os devaneios e interfere na história. BS não serve apenas para contar mentiras e recriar-se com os efeitos do engano; só se realiza quando esse jeito chaplinesco de fazer o contrário do que sugeriu atinge a eficácia de levar a equipa à zona de finalização. Se a matéria-prima da finta é técnica, habilidade e visão; velocidade e seus derivados (aceleração, travagem e saída para onde mandar o instinto); mais a inteligência de saber quando chegou a hora de intervir, BS faz parte da reserva espiritual de um futebol baseado em arte, imaginação, fantasia, sentimento e emoção. Portugal pode não ser campeão. Mas tem o melhor jogador do Europeu, bom ponto de partida para sustentar o otimismo.
4 Não há outra forma de traduzir as sensações que gera: quando pega na bola, vai direto aos adversários e elimina-os com um estalar de dedos, revela traços de uma estética associada a Lionel Messi – baixote, canhoto, imprevisível, frenético, deslumbrante... Começam por ser, apenas, semelhanças de estilo mas o número crescente de obras-primas desvenda pontos de contacto mais profundos. Apesar da perfeição com que alimenta as associações curtas de progressão participada, são as épicas aventuras individuais que elevam o jogo à condição de espetáculo e o tornam elemento de primeira necessidade para a indústria em que o futebol se transformou. Em breve os 15 milhões pagos pelo Monaco serão uma gota de água no oceano do seu valor de mercado. O tempo corre a favor da sua juventude e da sua genialidade. Se chegar onde o talento lhe permite será a pedra no sapato da passagem de Jorge Jesus pelo Benfica.
William está um passo à frente
A experiência numa competição de jovens tem valor superior ao que, à partida, se pode pensar
William Carvalho está um passo à frente de quase todos os jogadores do Europeu. Poucos atingiram o patamar competitivo do médio sportinguista: é titular de uma equipa de topo; entre Portugal e Bélgica já fez mais de 100 jogos ao mais alto nível; está a ganhar espaço na Seleção A; é alvo da cobiça de algumas potências europeias. Não se trata de enumerar vantagens avulsas. É só para expressar que elas sentem-se em campo. E disso tem Portugal beneficiado na gestão de muitas fases dos jogos.
Sérgio Oliveira tem autoridade
Aos 23 anos e com o talento que revela vai ainda a tempo de se afirmar numa grande equipa
Num grupo de jogadores jovens mas qualificados, Sérgio Oliveira é um exemplo de autoridade. O capitão português tem dado resposta adequada às responsabilidades acrescidas pela braçadeira que ostenta e revela maturidade que excede em muito a idade que tem. Não se trata de jogar bem ou mal, com mais ou menos eficácia. Trata-se de tomar em qualquer circunstância e zona do terreno as melhores decisões para o coletivo. Para triunfar precisa de convencer os outros a segui-lo, razão pela qual o FC Porto não é um desafio fácil. Outra coisa é ter condições para vencê-lo. E ele tem!
José Sá precisa de jogar na Liga
Portugal já confirmou o potencial de uma das seleções mais fortes do Europeu de sub-21
José Sá está a ser o grande esteio da formação comandada por Rui Jorge, prova de que pode defender as costas de uma grande potência. Terceiro guarda-redes do Marítimo e titular absoluto da equipa B, que desceu ao CNS, chegou ao grande palco no fim de uma época em que foi obrigado a um tipo de intervenção diferente, isto é, com sucessivas descargas de energia, prova de que não viveu numa civilização perfeita. Na Rep. Checa está a revelar condições excecionais. Se conseguir jogar na Liga poderá ser um concorrente de Rui Patrício e companhia.
