Brasil não mais será o mesmo

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Brasil não mais será o mesmo
Brasil não mais será o mesmo

Daqui por dez anos. Daqui por cem anos. Daqui por mil anos. Este Mundial será sempre recordado pelos 7-1 que a Alemanha deu ao Brasil nas meias-finais. Talvez esse jogo venha a ser ainda mais lembrado do que o próprio campeão do Mundo que se decide hoje. O futebol brasileiro nunca mais será o mesmo depois deste Mineirazo. Muita coisa vai mudar. Muita coisa tem de mudar.

Todos os jogadores e equipas têm direito a um dia mau, a um dia de verdadeiro pesadelo. Mas nada fazia prever um desastre tão grande. É verdade que o Brasil nunca tinha convencido neste Mundial. Tirando a primeira parte contra a Colômbia, foi sempre uma equipa mal organizada, frágil e previsível, que se afastava da banalidade apenas por causa do génio Neymar. A entrada sobre ele foi arrepiante. As suas lágrimas, na quinta-feira, a dizer que podia ter ficado paraplégico, emocionam-nos a todos. Espero que recupere rápido, porque o Neymar faz muita falta ao futebol. Mas, mesmo sem ele e sem Thiago Silva, o Brasil tinha de ter feito muito mais. Associado ao demérito dos brasileiros, esteve o enorme mérito dos alemães. Foram opostos. Uma equipa jogou de forma horrível. A outra equipa jogou de forma demolidora. Tudo ilustrado num resultado histórico. Ao ver aquele jogo, foi impossível não viajar até ao passado e recordar grandes equipas canarinhas. Como a do Mundial de 1982. Não ganhou, mas encantou o Mundo. Foi o expoente máximo do futebol-samba, da arte e da magia que ofereciam jogadores como Sócrates, Zico, Falcão e Éder, entre tantos outros.

Depois, o Brasil convenceu-se que foi a sua organização mais defensiva e mais europeia que lhe deu os mundiais de 1994 e 2002. Em ambos os casos, porém, não foi o estilo mais fechado, não foi a força de médios (bons e duros) como Dunga ou Mauro Silva (isso não chega). Foi novamente o talento. Foi Romário e Bebeto (1994). Foi Ronaldo, Rivaldo e Roberto Carlos (2002). O Brasil precisa de voltar a encontrar o seu verdadeiro estilo, a sua verdadeira arte. O Brasil precisa de voltar a ser uma seleção que gosta de ter a bola, como sempre foi.

A Alemanha, por sua vez, está no caminho certo. Até pode não ganhar hoje a final, mas está a tirar os proveitos de uma planificação que começou há muitos anos. Já não é uma equipa apenas mecânica e muito forte defensivamente. Mantém esse rigor, mas acrescentou toque de bola, drible, circulação rápida. Uma equipa com características e jogadores de influência latina. Volta a defrontar a Argentina na final de um Mundial pela terceira vez. Primeiro, no México’86, a Argentina de Maradona venceu. Depois, no Itália’90, a mesma Argentina de Maradona perdeu 1-0 com uma grande penalidade de Andreas Brehme. A Alemanha era muito diferente do que é hoje. Curiosamente, a Argentina tem algumas semelhanças. Tal como em 1986 ou 1990, volta a ter uma seleção muito rigorosa taticamente, com grande capacidade defensiva, mas que depois está dependente de um génio para ajudar a resolver os jogos. Antes: Maradona. Agora: Messi.

É verdade que a Alemanha acaba de ganhar 7-1 ao Brasil, gozou mais um dia de descanso e tem mostrado maior solidez ao longo do Mundial. Mas numa final nunca há favoritos. Começa tudo do zero. E nunca se pode ser favorito quando se joga contra uma equipa que, do outro lado, tem alguém como Messi. Não está na sua melhor forma e, mesmo assim, já marcou quatro golos.

Tenho a certeza de que será uma grande final, com duas excelentes equipas. Um tira-teimas entre rivais históricos. E será o último capítulo de um dos melhores e mais surpreendentes Mundiais de sempre. Tenho vibrado em cada jogo, mas neste momento já começo a ficar triste. Está quase a acabar.

GRANDE CALDEIRADA

Romário demolidor

Esteve em silêncio durante todo o Mundial por respeito à sua seleção, mas não aguentou mais depois da derrota por 7-1. Só que não foi contra os jogadores ou contra o treinador. O problema do futebol brasileiro é bem mais profundo. Começa na CBF. E Romário foi direto à questão: “Marin [presidente] e Del Nero [vice] tinham de estar na cadeia. Bando de vagabundos. O nosso futebol vem-se deteriorando há anos, sendo sugado por dirigentes sem talento. Um bando de ladrões, corruptos e quadrilheiros.” O Baixinho, mais uma vez, a pôr o dedo na ferida. Um campeão!

MELHOR MOMENTO

As lágrimas de David Luiz

O jogo acabou e o Brasil estava em depressão e choque. Os jogadores queriam ter feito mais, muito mais, mas não deu. Na flash-interview fiquei emocionado com o discurso, em lágrimas, de David Luiz. O seu sofrimento. De alguém que queria, como ele disse, ter dado uma alegria ao seu povo, mas não conseguiu, e tudo desabou daquela forma. Neste Mundial, David Luiz mostrou ter um fair play enorme e um grande coração. Primeiro, o gesto com James (no final do Brasil-Colômbia), agora estas lágrimas que emocionaram o Mundo. David, és um campeão. De certeza que vais dar a volta por cima e saborear muitas vitórias ao longo da tua carreira.

O CRAQUE

Thomas Müller matador

Tem 24 anos e está a ser uma das grandes figuras deste Mundial. A maior figura da Alemanha até ao momento (juntamente com o guarda-redes Neuer), Thomas Müller já marcou cinco golos (apenas menos um do que James Rodríguez, melhor marcador da prova) e pode vir a ser o artilheiro da Copa, se marcar hoje dois golos. Joga no meio, joga no flanco, é rápido e mortífero. Foi ele que abriu a contagem na noite do maior pesadelo da história do futebol brasileiro. Um craque.

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