Bruno de Carvalho: agora ou... nunca mais

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Bruno de Carvalho agora ou... nunca mais
Bruno de Carvalho agora ou... nunca mais

Não há nada que possa relativizar o facto de um jogador de futebol - no caso vertente, Jefferson, do Sporting - insultar o seu presidente (Bruno de Carvalho), no auge de uma conversa que, segundo os jornais, tinha a ver com o futuro profissional do lateral-esquerdo brasileiro. E se lhe chamou "mentiroso", como também veio a público e não foi desmentido, por maior dose de razão que poderia afectar essa verbalização, nunca em nenhum momento um jogador se pode sentir confortável num "tu cá, tu lá" com o seu máximo superior hierárquico, a menos que esteja mesmo apostado em deitar tudo a perder. É uma questão de posicionamento; é uma questão de não se subverter a lógica das coisas, mesmo neste Mundo colocado de pernas para o ar.

Por maior elasticidade que se possa atribuir ao "mundo do futebol", exposto a tantas e tão diversificadas variáveis, é difícil entender como é que um caso destes pode acontecer numa semana decisiva para o Sporting: a poucas horas da resolução da eliminatória da Liga Europa com o Wolfsburgo e a escassos dias de um jogo tão importante quanto aquele que o Sporting vai realizar no Dragão para o campeonato. O contributo para o enfraquecimento desportivo da equipa, seja ele imputável ao jogador, ao presidente ou aos dois, numa semana determinante para o Sporting, é qualquer coisa inconcebível e difícil de entender.

Há um outro facto que adensa o clima de conflitualidade que se vive dentro e na periferia de Alvalade, tudo na mesma semana: o castigo do CD da FPF ao presidente dos leões, alegadamente por ter utilizado expressões injuriosas perante elementos afectos ao Gil Vicente, no intervalo do jogo com a equipa de Barcelos. Quer dizer: em vez de o presidente, os jogadores e a equipa técnica estarem concentrados no objectivo máximo de optimizar todos os recursos para um bom desempenho desportivo, numa semana particularmente importante, eis que rebentam não uma mas duas bombas em Alvalade - uma das quais no intervalo (veja-se bem…) do jogo com o Gil Vicente. Não sobram, portanto, motivos para perguntar: está tudo louco

É particularmente impressiva esta tendência autofágica do Sporting, que assume contornos históricos e sanguíneos. E o que mais sobressai é a dificuldade para se achar um ponto de equilíbrio. O Sporting passou de uma casa desgovernada, pouco centrada na especificidade da compreensão do fenómeno do futebol, em que o dia-a-dia do clube de Alvalade se esgotava na discussão em torno do património não desportivo, para uma liderança em que o futebol (a cabina e as suas motivações) passou a estar debaixo de uma inusitada e excessiva pressão presidencial. Não pode haver meio termo?!

O Sporting passou de uma fase em que qualquer director se sentia legitimado para dar o seu bitaite sobre as "coisas e loisas do pontapé na chincha", esvaziando a autoridade presidencial, para um ciclo de superpresidencialismo musculado. O Sporting precisava de um período de centralização e a primeira abordagem de BdC, nesse sentido, foi de grande eficácia. Talvez tenha sido esse grau de eficácia que terá convencido BdC da sua inexpugnabilidade. Não é preciso ser perito em gestão ou liderança para perceber que o Sporting está a falhar a concertação entre as tarefas de uma acção presidencial e directiva no sentido de tirar o clube do caminho que, por exemplo, o Parma trilhou, e as que promovem boas práticas na área desportiva.

Apesar da eliminação e do peso dos factores exógenos no desempenho da equipa, este jogo com o Wolfsburgo provou que os jogadores são capazes de alcançar bom rendimento desportivo. Foi, talvez, a melhor exibição da equipa, com um futebol alegre, ambicioso, vistoso e - o mais importante - equilibrado. Marco Silva conseguiu montar um plano estratégico e uma táctica de modo a manter a solidez do Sporting. Aliás, é bom notar que BdC tem contado com treinadores de enorme bom senso: primeiro, Leonardo Jardim (competentíssimo em Londres!); agora, Marco Silva, que resistiu estoicamente às ondas de choque construídas à sua volta.

Em conclusão: o Sporting tem tudo para continuar na senda da recuperação. Bons jogadores, bons treinadores; só tem de ter calma consigo próprio, mesmo que queira (como deve) não pactuar com os miasmas do sistema do futebol.

Pelo andar da carruagem, Bruno de Carvalho só estará pronto para ser presidente do Sporting no espaço compreendido entre 5 e 10 anos. Mas para poder ganhar direito a passar por essa provação vão ser vitais os próximos 5 a 10 meses. Aquilo que Bruno de Carvalho fizer, grosso modo, no intervalo de um ano será decisivo para se manter, ou não, como presidente do Sporting no médio e longo prazos. Falhar ou não a oportunidade - eis a questão.

NOTA - Como comentador, Rui Gomes da Silva pode dizer o que quiser. Mas não é possível separar a sua condição de comentador do estatuto de vice-presidente do Benfica. A sua reacção pública à eliminação do Sporting, nos termos em que a fez, merecia uma tomada de posição de Luís Filipe Vieira. É neste momento que os líderes se vêem ou se escondem.

Perigoso!

Vivem-se tempos difíceis na Europa, em razão de más políticas que levaram ao estertor da austeridade - políticas protectoras das elites à custa do sacrifício das não elites - e o futebol, como fenómeno catalisador das emoções, é o palco perfeito para a propagação da violência. Aquilo que aconteceu recentemente na Grécia é mais um episódio de intolerância, que só não conheceu repercussões mais graves por mero acaso. Os governos não podem continuar a assistir a estes episódios de irracionalidade com a bonomia do costume. O governo grego, no caso em apreço, suspendeu (e bem) o campeonato.

Em Portugal, o poder político está aprisionado à ideia de que tocar no futebol significa comprometer o voto dos eleitores. Não é assim, bem pelo contrário, mas esse temor domina. O que aconteceu no recente Sporting-Benfica deveria ter suscitado uma posição firme do Governo e não um pífio espasmo muscular. A falta de bom senso no futebol português começa a ser alarmante. Ninguém se preocupa com o exemplo. Ninguém se preocupa com nada. Só a defesa incondicional da tribo. Perigoso, muito perigoso. Querem vedar o acesso das pessoas normais e das famílias ao futebol?! Que tristeza! Está a circular na Net um vídeo intitulado "Holocausto lampião" que deve suscitar a intervenção imediata das autoridades. Como se pode descer tão baixo?

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