Bruno de Carvalho igual a Pinto da Costa?
Ao longo de trinta anos, houve muitos dirigentes, no Benfica e no Sporting, que tentaram imitar o presidente do FC Porto, Pinto da Costa. Mas nunca nenhum, como o actual presidente dos leões, parece ter compreendido a fórmula e corporizado o perfil do velho homólogo portista. Isso é bom? Pode até parecer, mas é mais... uma tragédia para o futebol nacional! No artigo da semana passada, sobre os erros de arbitragem do Sporting-Belenenses e confrontado, há muito, com o anacronismo que se vive na indústria do futebol profissional, perguntava: árbitros contam com o Sporting?
Parecia que estava a adivinhar: a liderança isolada da equipa de Alvalade tinha de causar perturbação, porque os interesses instalados são muitos, o Sporting já havia perdido o seu espaço de afirmação, adregando a pior classificação de sempre na época passada, no seguimento de um conjunto de temporadas de muitos equívocos, sujeito a sucessivas presidências que pareciam estimuladas por uma qualquer condecoração virtual que premiasse a pior gestão inter pares, e a nomeação de Manuel Mota para o jogo com Nacional, pelo seu perfil e passado recente a dirigir jogos a envolver um dos grandes, não pressupunha nada de bom para o clube leonino. E se a resposta àquela pergunta ficasse, em definitivo, condicionada pela arbitragem do Sporting-Nacional, então as conclusões seriam óbvias: “Não, os árbitros não contam com o Sporting” ou, em alternativa, “o Sporting já foi de Mota”.
Ébom que se tenha a noção de que os abusos do “sistema do futebol” em relação ao Sporting são uma extensão ou uma consequência da fragilização que o Sporting impôs a si próprio durante anos a fio, minando-se por dentro e sem encontrar tempo nem espaço para correr por fora. Os concorrentes directos aproveitaram-se da situação (que lhes convém) e foram colocando nos órgãos decisórios aqueles que, directa ou indirectamente, melhor podem defender os seus interesses.
No caso concreto da FPF, o cenário não merece qualquer dúvida: o presidente Fernando Gomes é puxado por um braço pelo Benfica e puxado por outro braço pelo FC Porto, aqui com a ajuda preciosa de Tiago Craveiro. Nada de mais: o Sporting andava entretido com os “jogos florais” da sua própria destruição e a concorrência não tem de ser nem romântica nem estúpida.
Voltando ao jogo da última jornada: na verdade, depois de tudo o que já se leu, viu e ouviu, não restam dúvidas de que, no lance não validado que daria a vitória aos leões no jogo com o Nacional, o árbitro Manuel Mota sancionou uma falta inexistente de Slimani sobre o central Miguel Rodrigues.
Num jogo de 0-0, e com uma decisão errada (repito: o empurrão de Montero é que deveria ter sido sancionado), a incapacidade que o Sporting revelou para chegar ao golo ficou relegada para segundo plano e deu a oportunidade a Bruno de Carvalho para adensar as suas preocupações em relação à forma como funciona o futebol em Portugal, fora das quatro linhas.
Algumas donzelas ficaram escandalizadas com esta asserção do presidente leonino, porque a maior parte delas, arautos das liberdades, do pluralismo e das reformas, estão entre as muitas personalidades que contribuíram para que o futebol português seja aquilo que é hoje: fraco dentro do campo (sem nenhuma exigência) e “fortíssimo” fora das quatro linhas.
Bruno de Carvalho tem um enorme desafio sobre os ombros: não apenas recuperar o Sporting, e nesse sentido vai bem. Se ele se confessa envergonhado de pertencer a este futebol, tem de ir para além de um discurso “déjà vu” exactamente por quem dominou o futebol português nos últimos decénios. Só há uma maneira: avançar com propostas de reforma; denunciar o que está mal, mas, igualmente, marcar a diferença, confessando-se beneficiado (pela arbitragem) quando isso acontece...
Dir-se-á que o presidente do Sporting, perante os vícios acastelados no futebol português, não tem grandes alternativas. Sozinho, não conseguirá mudar o sistema e, por isso, luta com as armas que tem à disposição. Armas conhecidas: pressão e disseminação da teoria do medo.
Para colocar outra vez o nome do Sporting na “agenda futebolística” e dar um sinal claro às instituições que “o Sporting não morreu”, Bruno de Carvalho endureceu o discurso. E há muito que está a preparar o jogo de Alvalade, com o FC Porto, de amanhã. Tem feito de tudo para provocar o seu adversário, designadamente através do jornal do clube. Há uma parte útil (de denúncia) e outra absolutamente inútil. O FC Porto mantém-se imperturbável, vá-se lá saber se é porque a estrutura está em crise ou porque, estrategicamente, será melhor assim.
A verdade é que não estamos habituados a ver um Sporting “vivo” e o FC Porto a fazer de morto. O comportamento das equipas e a arbitragem de Olegário Benquerença vão dizer muito em relação à natureza dos próximos capítulos.
JARDIM DAS ESTRELAS
Futebol a sério
Quem gosta do chamado “futebol jogado” tem de mostrar um grande fascínio pelo futebol inglês. É o meu caso. Vi três jogos do “Boxing Day” e todos me prenderam a atenção. Pela qualidade, mas sobretudo, repito, pela intensidade de jogo. São 90 minutos de luta permanente, de procura incessante pelo golo, sem quebras nem “mariquices”. Com excepções aqui e ali (afinal, o futebol inglês importou muitas tendências), a ética está presente. Até na forma como se vê e assiste ao espectáculo. Os árbitros têm um critério largo e há uma muito maior tolerância face ao erro (e também se viram erros graves...) porque o sistema é credível e os dirigentes não têm o protagonismo e a força nos bastidores que, por exemplo, exibem em Portugal.
O CACTO
A liga do pé-coxinho
Em antítese ao que se passa no futebol inglês (3 jogos em menos de uma semana, sem queixas e num ritmo alucinante), o futebol em Portugal é mais falado do que jogado. Em vez de uma sólida cultura de trabalho, a Liga portuguesa dá uma imagem de laxismo e “deixa andar”, estimulando as pausas e dando férias a (quase) todos. Pior do que isso é que, mesmo com férias, quando a competição recomeça lá vem mais queixas, mais dói-dóis, e mais conversa: sobre os contratos que não se renovam, sobre as saídas para outros clubes, sobre tudo e mais alguma coisa, na Liga do pé-coxinho. JOGUEM À BOLA!
