Bruno de Carvalho presidente-treinador?

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Bruno de Carvalho presidente-treinador?
Bruno de Carvalho presidente-treinador?

A ida de Bruno de Carvalho (BdC) ao aeroporto para “resgatar” Nani, o último reforço dos leões, diz muito sobre a forma de estar de um líder controverso, que está no futebol português para fazer história. Não me lembro que alguma vez um presidente tenha ido esperar um jogador ao aeroporto e, na Portela, entre aquisições de pechisbeque, já aterraram também muitos craques. Não sei, acho que ninguém sabe – podemos apenas deitar-nos a adivinhar – se Bruno de Carvalho conseguirá projectar o Sporting ao nível dos seus tempos áureos.

A difícil situação financeira, comum a outros emblemas, não permite inflamados optimismos, mas uma coisa é certa: o actual presidente dos leões preparou muito bem a sua aterragem em Alvalade e, até pelo que já deixou escapar em público, está disposto a ganhar cabelos brancos no Sporting. Quer dizer: Bruno de Carvalho veio para ficar e está disposto a correr riscos de rápido desgaste, porque já se viu que não está muito preocupado em arranjar parceiros de luta; ao invés, quer deixar bem claro que prefere não pactuar com personalidades e dinâmicas estabelecidas. É arriscado? É. Parece até suicida, porque os DDT (Donos Disto Tudo) costumam manobrar nos bastidores, muitas vezes em silêncio, e matar por asfixia, sendo certo, porém – e isso favorece BdC – que os DDT estão a ser confrontados, ultimamente, com as suas próprias manobras, familiares e parafamiliares, restando saber se a Justiça está preparada para potenciar o aparecimento de novas práticas e outro tipo de governança.

A forma como Bruno de Carvalho resolveu o caso Rojo despertou dois tipos de reacções: umas, mais leoninas, exaltando a coragem do líder; outras, menos leoninas, realçando a verve “valeazevedista” do presidente do Sporting. Sobre esta matéria, a prudência é a melhor conselheira, mas não deixa de ser relevante a tomada de posição de BdC sobre o recurso dos clubes de futebol aos fundos de investimento. É bom tomar nota de que, no futebol, a eclosão dos fundos de investimento resultaram como um recurso quase desesperado, num tempo em que já não há mais espaço para aventureirismos, despesismos irresponsáveis e regimes de excepção.

Os fundos de investimento são uma consequência da irresponsabilidade gestionária e uma forma de os seus titulares, de rosto tapado, se aproveitarem das fragilidades dos clubes. Mas há um outro aspecto, que tem a ver com os rostos tapados: há a larga suspeita de que os mecanismos subjacentes à existência dos fundos estão a arregimentar pessoas bem colocadas dentro do futebol para engordarem à conta do emagrecimento dos clubes e da sua anunciada falência. Tudo isto é muito grave, e não deixa de ser curioso o facto de ter sido alguém chegado há pouco tempo ao futebol, herdeiro das fórmulas que fizeram crescer passivos e enriquecer personalidades e entidades em redor dos clubes, a insurgir-se contra esta nova forma de ditadura. Ditadura... solicitada, sublinhe-se.

Não conheço o contrato celebrado com a Doyen Sports, mas a este nível há entidades competentes, no espaço internacional, para dirimir litígios deste tipo. Uma coisa é certa: alguém tem de ter a coragem de fazer marcha-atrás e gerir os clubes de acordo com as respectivas possibilidades, preservando a identidade associativa.

Opresidente do Sporting, aconselhado certamente pelo gabinete jurídico, viu aqui uma oportunidade de tentar fazer jurisprudência e, entretanto, consumar um negócio que pudesse resultar em reforço da equipa de futebol. Envolver Nani na negociação de Rojo é um sinal de absoluta determinação. Nani passa a ser um salvo-conduto decisivo para a afirmação de Bruno de Carvalho como presidente do Sporting. BdC precisa que Nani assuma as suas responsabilidades neste regresso a Alvalade. É preciso que Nani se transforme, dentro do campo, na locomotiva do Sporting, que seja agregador e mobilize a equipa.

Esta jogada será um fiasco de consequências incomportáveis se Nani falhar e se o Sporting não conseguir resultados (também) contra os “Aroucas” da Liga. Bruno de Carvalho foi ao aeroporto como presidente-adepto, consciente da sua proeza e da importância que Nani pode ter neste campeonato. Creio, no entanto, que o efeito-Nani pode ser muito positivo, mas a equipa não foi globalmente reforçada como deveria – para o imediato... O Sporting deveria ter investido num defesa-central de grande qualidade em vez de andar a contratar jovens jogadores estrangeiros de valor não superior aos que tem em casa. Aqui, BdC falhou rotundamente, e é preciso perceber porquê. É que BdC, na sua ânsia centralizadora e populista, já deu sinais de que pode tornar-se no primeiro presidente-treinador. Já esteve mais longe o Sporting Clube de Carvalho.

JARDIM DAS ESTRELAS

Que filme!

“Não façam filmes” – disse Quaresma, quando questionado sobre o facto de Lopetegui não lhe ter dado a titularidade em Lille. Lopetegui está a marcar pontos. Já não dá dúvidas: tem ideias, tem fibra, tem personalidade, e está a arrastar consigo a SAD portista para aquilo que pretende. A equipa promete e já tem o polegar e a impressão digital do treinador espanhol. Mas... O risco que corre com Quaresma é grande.

Deixá-lo de fora da convocatória pode ser a conquista do balneário ou a decapitação de Lopetegui, que acredita na força do colectivo. Este frente-a-frente com Quaresma (recuperá-lo ou deixá-lo) talvez seja o seu maior desafio interno. Quaresma parecia disponível para o processo de inclusão e colectivização, mas tudo vai depender da forma como reagir ao sinal dado pelo treinador. Que filme!

O CACTO

Negócio?

Cancelo é da Meriton (de Peter Lim), do Benfica ou do Valencia (que será de Peter Lim)? Os clubes não souberam medir as suas megalomanias e agora estamos nisto: só falta mesmo vender a perna esquerda a um fundo, a direita a um clube e a cabeça a um agente. Entretanto, por aqui, com Benfica e Sporting distantes, mede-se a largura dos passivos e o comprimento dos dislates... É isto o futebol-negócio? Quem o regula?

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