Cada vez mais Simão
1. A braçadeira é apenas um primeiro sinal de liderança e maturidade; o tempo confirma-o como símbolo interno e ameaça exterior, em cenário que potencia a figura de estrela abrangente e solidária; hábil a actuar num flanco e noutro, atrás e à frente; em linha recta ou em diagonal, de costas ou de frente para a baliza. Simão Sabrosa possui inesgotável manancial de argumentos técnicos, conhecimento geográfico do terreno e sensibilidade para compreender a história do meio em que está inserido. Tornou-se íntimo dos adeptos e alvo de emoções fortes que faz por merecer; assumiu de corpo e alma o papel que tem a cumprir de águia ao peito e aproveitou a ocasião para se elevar até muito próximo das maiores referências europeias na sua posição. Seguindo as palavras que Jorge Valdano escolheu para definir Raul, sobre Simão também é possível desenvolver a teoria segundo a qual primeiro, faz tudo bem; segundo, cada vez o faz melhor.
2. A corrida é elegante e os gestos transmitem a imagem de harmonia que o torna agradável à vista; é rápido e ágil, tem talento e sabe o que faz em qualquer circunstância; as ideias estão no lugar e às dificuldades responde com o recurso ao manual das coisas simples. O estágio de dois anos feito em Barcelona, cedo como arranque definitivo para o futuro grandioso, mas de utilidade extrema para se tornar ainda melhor jogador, permitiu-lhe acrescentar argumentos ao repertório concentrado no código genético. Por conveniência de serviço em Camp Nou, que chegou a ser uma obsessão, ganhou confiança automatizando a corrida limpa e o cruzamento seguro; no momento de consolidar os valores da objectividade e moderar a tentação do adorno, o segredo foi não abdicar do instinto e manter a esperança de ser feliz; não danificar os princípios da imaginação e muito menos matar o sonho que lhe comandava a vida.
3. Simão derruba mais pela perfeição do que pelas mentiras bem contadas; foge aos carrascos porque sabe o que vai fazer e não tanto por golpes de magia inventados na altura. Pega bem na bola com os dois pés, parada ou em movimento, pelo que os passes, normalmente executados de zonas laterais, têm dois efeitos: são punhais cravados nos adversários e ramos de flores oferecidos aos companheiros. Ainda que esteja mais dotado para funcionar como solução individual, cumpre as regras elementares dos grandes futebolistas - valoriza o colectivo como bem sagrado. Sempre disponível para receber a bola, Simão torna-se devastador quando aborda os defesas e os deixa para trás sem apelo nem agravo; pelo modo como finta ou simplesmente altera a direcção e progride; como passa e, em plena aceleração, dá sentido às cavalgadas. Sim, chega a cometer infracções por excesso de velocidade, mas nem quando parece ir em contramão na auto-estrada é vítima de acidentes. Acima de tudo é um mestre da condução.
4. O romance com o golo é antigo, mas só agora foi consolidado como relação eterna, passo imprescindível para atingir dimensão futebolística ainda mais esplendorosa. Simão aperfeiçoou o poder de síntese e decorou o mapa das estradas para a baliza contrária, daqueles que contemplam todos os caminhos secundários e até os atalhos desconhecidos. Sem esforço passou a dar satisfações às estatísticas, mas preservando sempre a inteligência, a sensibilidade e as suas características; porque é orgulhoso e sabe o peso que exerce no grupo, impressiona pela generosidade da contribuição no trabalho menos artístico; sendo referência absoluta na SuperLiga e candidato a craque universal, Simão cumpre todos os requisitos emocionais do futebol e ainda oferece, como bónus surpreendente, a eficácia e a regularidade. Dito de outra forma, sabe quase tudo mas continua a aprender; não tem currículo preenchido mas é um vencedor nato; suporta-se num presente sólido mas tem a promessa de um futuro só ao alcance das grandes estrelas.
