Campeonato sem pés nem cabeça

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Há em Portugal uma tremenda falta de cultura desportiva. Neste cantinho soalheiro da Europa, a maioria das pessoas só se preocupa com o futebol. O resto é paisagem. Já disse – e reafirmo – que a imprensa especializada tem responsabilidades nessa área, pois pouco ou nada tem feito ao longo dos anos com o intuito de ajudar o público a entender, apreciar e acompanhar convenientemente outras modalidades. O aparecimento cíclico de bons resultados - no râguebi, triatlo ou noutro qualquer desporto -, sempre ajuda a agitar o sistema que, com justiça, é intitulado por muitos como “a ditadura futebolística”, mas parece-me indiscutível que os portugueses, mesmo sem conviverem por cá com uma legião de campeões, podiam e deviam estar mais identificados com o desporto e não apenas com o futebol.

Mas, ao contrário do que sucede noutros países, convém esclarecer que os portugueses não são assim tão loucos por futebol. Por cá, a paixão existe, é verdade, mas apenas para com o clube do coração. A excepção é a Selecção Nacional que, nos últimos tempos (à custa de uma sequência ímpar de resultados que nos levaram ao segundo lugar no Euro’04 e ao quarto no Mundial’06), conseguiu unir o País. Serão poucos, por agora, os que não torcem pela rapaziada de Scolari. Adiante...

No dia-a-dia, o interesse geral pelo futebol começa e esgota-se em torno dos três grandes. A partir daí pouco ou nada é importante para a opinião pública. Cada um de nós gosta de saber o que se passa com um ou outro clube, mas as discussões acesas, as polémicas, só se fazem por causa de Benfica, Sporting e FC Porto.

Quer isto dizer que o futebol português pode conter situações perfeitamente anedóticas que a maioria dos adeptos nem sabem que eles existem. Por exemplo: quem tinha conhecimento que só em Portugal (estou a ter em conta os países civilizados) é possível terminar em primeiro um escalão secundário e não subir de divisão? Duvida? Então veja a fórmula de disputa da Segunda Divisão e constate que os vencedores das quatro séries só ganham o direito a participar numa eliminatória que ditará o nome de dois promovidos.

Uma qualquer mente brilhante da Federação - com a anuência das Associações que, pelos vistos, defendem tudo e todos… menos os clubes que representam – inventou um campeonato mirabolante em que, teoricamente, uma equipa pode vencer todos os (26) jogos da sua série (sem sofrer nenhum golo), seguir para a eliminatória (pensava que isto era exclusivo da Taça e que os campeonatos se resolviam com base na regularidade), empatar as duas partidas a zero e falhar a promoção nas grandes penalidades. Bom, é estúpido e imoral, mas inovador!

Custava muito despromover quatro equipas da Liga de Honra e premiar o sucesso dos vencedores da Segunda Divisão? Ou melhor: não podiam ter feito apenas três séries, o que implicaria somente três subidas e descidas? Bom, isso obrigaria a pensar e a gostar de simplificar, predicados cada vez mais raros neste pitoresco País.

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