Carga emocional
O Benfica-FC Porto que se joga amanhã tem uma carga emocional para os benfiquistas que pode favorecer o seu opositor. A recente morte do grande Eusébio pode funcionar como um fator inibidor da concentração descontraída da equipa. Este aparente paradoxo – concentração descontraída – é muitas vezes a chave do sucesso em grandes embates.
Os apelos exotéricos, o vamos lá ganhar pelo falecido ente querido, a carga emocional desfocada sobre o jogo presente, tudo isto pode pesar nas pernas dos atletas. Deixado este alerta às cores benfiquistas, o que se pode esperar de mais um clássico faiscante?
Do lado do Benfica basta que Jesus não desate a inventar como tem feito em épocas anteriores, onde até as ideias lhe tremeram quando se tratou de defrontar o rival do Norte, para se poder notar o crescimento global da equipa. Desde que as peças voltaram às suas posições de maior rendimento – os casos de Matic e Enzo Pérez eram os mais gritantes e a correção deu-se na visita ao Estoril –, o Benfica não parou de crescer como equipa. Claro que agora falta Cardozo, o que no lado contrário só seria comparável à falta de Jackson.
Portanto, um Benfica com o peso da morte de Eusébio, uma indefinição na baliza e sem Cardozo, defronta um FC Porto sem talento, pouco dinâmico e sempre em busca de equilíbrios. Com estes dados cruzados com o perfil dos dois técnicos, bem se pode temer a reedição dos clássicos dos finais da década de setenta em que o medo mútuo gerou longos bocejos quase sem remates, para gáudio de José Maria Pedroto, que assim terminava com a longa hegemonia ditada pelo talento de Eusébio e seus pares. Se dependesse apenas da vontade de Jorge Jesus e de Paulo Fonseca, o jogo de amanhã bem poderia terminar empatado a zero, sem grandes emoções ou percalços. Mas felizmente há um punhado de talentosos jogadores vestidos de vermelho. E, no lado portista, Josué, Varela e os laterais poderão ganhar outro brilho com a presença de Quaresma.
P.S. – A decisão de Luís Filipe Vieira, que protege a viúva de Eusébio e os restantes herdeiros da intempérie financeira, merece ser aplaudida. Não só pelos golos que marcou Eusébio, mas também pelo momento de coragem que levou o grande ídolo a abraçar Manuel Vilarinho, mesmo sob as extremas ameaças de Vale e Azevedo.
