Carro em 2.ª mão
Sobre as eleições no Sporting começo por uma memória forte resumida num apelido: Vale e Azevedo. No reinado de Vale, poucos jornalistas terão lutado por investigar e dar notícias – e depois, na área de opinião, pugnado por um novo rumo para o Benfica – como o autor destas linhas. Primeiro, nas páginas do “Independente”; depois no ecrã da TVI, tornava-se óbvio que, se Vale e Azevedo não caísse, poderia ser o Benfica a não ter futuro algum.
E por que me surge este nome em todas as sílabas do pesadelo a respeito das eleições no Sporting? Posso estar a ser muito injusto, mas onde ouvia os agudos de Vale e Azevedo, parece-me ouvir agora os graves da voz de Bruno de Carvalho. Há pessoas para quem todas as promessas feitas são legítimas. Até podem estar convencidas de que as irão cumprir – volto a alertar para o risco de poder estar a ser injusto –, mesmo contra todas as evidências, mas isso não interessa verdadeiramente no momento em que se confrontam com a realidade. Essa realidade que, sublinho, só atrapalha os vendedores de sonhos.
Agora muito leitor está a pensar em José Sócrates – sim esta regra também se aplica ao dito engenheiro. Mas é o Sporting que hoje aqui me traz. E aí o grande problema parece-me ser a incapacidade de resistência dos sócios ao discurso melífluo do candidato Bruno de Carvalho. Dinheiro russo e um treinador holandês – quem consegue resistir a tal canto de sereia? Talvez os votantes do Sporting se consigam lembrar do que prometia José Sócrates há ainda apenas um ano e meio. Talvez os votantes do Sporting olhem para o outro lado da Segunda Circular e recordem o que esteve em vias de acontecer ao grande rival. Ou talvez ajam como quase sempre age o povo soberano – sem memória nem cautela. Pondo o voto em quem promete mais no tom mais convincente. Mesmo que não lhe comprasse um carro em segunda mão.
