Carta aberta ao futebol

Adicione como fonte preferencial no Google
Carta aberta ao futebol
Carta aberta ao futebol

Entre os flagelos que assolam gravemente o nosso país, a corrupção ocupa um dos lugares cimeiros e é, muito provavelmente, a questão mais difícil de combater. Trata-se de um fenómeno existente a todos os níveis, dos estratos sociais mais baixos até aos mais altos, e que abarca diferentes domínios da sociedade como, por exemplo, a política, a economia ou o desporto. O retrato é real e a história recente falam por si. Neste novo século assistimos à chegada de uma crise de valores, que mais tarde se alastrou ao campo económico e financeiro, e no qual o nosso país foi uma das primeiras vítimas, que colocou a nu as debilidades da nossa sociedade. Em Portugal, isso levou à queda de banqueiros, administradores, gestores, políticos e dirigentes desportivos. Garantir e facilitar a troca de favorecimentos em detrimento do mérito é, sem dúvida, um caminho curto para o êxito, mas acaba sempre por ser o mais sinuoso. A corrupção só é praticada por quem pode, por quem tem algo de muito valioso para dar em troca. E, desta forma, acaba por prejudicar quem tem menos poder e/ou influência, que acaba preterido em função de algo material ou de favores imorais e desonestos.

Montada que fica esta teia, todo o sistema se transforma num enorme ciclo vicioso, onde quem exerce o poder consegue ganhar ainda mais preponderância e alargar o seu raio de influência e ação. Este é um problema muito difícil de combater, quer a nível social quer desportivo. Quem passeia por estes meandros da corrupção está devotamente entregue a um profundo secretismo, em que cada parte acaba por se encapotar mutuamente. Enfrentar este problema configura desafiar as bases dos atores mais poderosos e, como tal, qualquer tentativa pode ser altamente prejudicial para quem o ousar. É um facto indesmentível: a corrupção existe em Portugal e o futebol, por muito que nos custe, também é um terreno fértil para estas práticas. Inverter este mal só será possível com a chegada de um líder capaz de desenvolver a modalidade com uma visão de futuro, através de uma atitude transparente e com um projeto que envolva todos os intervenientes em prol do mesmo objetivo.

É por isso que defendo que a Federação Portuguesa de Futebol deveria ser liderada por pessoas idóneas, sem segredos e capazes de resistir a pressões e solicitações dos mais variados quadrantes, servindo os interesses do futebol nacional. Mas estou em crer que nada disso aconteceu. Ouvir uma declaração de vitória nas eleições da FPF, numa altura em que, à mesma hora, se realizava um jogo da Primeira Liga, não foi um bom indício. Tratou-se de uma entrada com o pé esquerdo e deu para ver a importância relativa que continua a ter o futebol dentro das quatro linhas.

Só o tempo poderá confirmar-nos em que trilhos acabou o futebol português de se meter. Tenho muitas dúvidas se estes serão os caminhos mais indicados. Porém, guardo uma réstia de esperança. Que sejam criadas condições para que a Seleção A possa continuar a marcar presença assídua nos Europeus e Mundiais, que o trabalho realizado na formação eleve ainda mais a prestação das nossas Seleções jovens nas competições internacionais, que se defenda o jogador português, que se melhore o sector da arbitragem e ainda que seja criado um novo modelo de dirigismo desportivo. Mais do mesmo é que não interessa para nada.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade