Chegou a hora de Carrillo
Não é um ilusionista virtuoso que tira coelhos da cartola. Sendo um jogador com imaginação, prefere o concreto ao volátil; dá mais valor à eficácia e ao jogo, cujas regras é preciso entender e respeitar, do que ao recreio individual e ao efeito que os devaneios criativos exercem nas bancadas. Ao contrário de outros que mantêm vínculo ténue ao coletivo e preferem inventar pelo caminho, Carrillo pertence à família dos extremos perfeitos a gerir espaço e tempo: cumpre o guião e não faz desvios à rota; é rápido em tudo o que faz e a bola não o torna mais lento; sem recusar os benefícios do instinto, automatizou um comportamento na abordagem aos adversários, processo que lhe dá mais segurança nos duelos que promove.
Tem velocidade alucinante e talento para administrá-la; é um jogador de explosões constantes, que conhece as vantagens de travagem e aceleração; vive em agitação permanente mas tranquiliza a inteligência pelas decisões que toma. Partindo de trás, com campo aberto, representa ameaça temível; mas também sabe aproveitar em espaços curtos o motor de F1 que tem nas pernas, prova de que é um exímio condutor, capaz de passar como um tornado pelos engarrafamentos que encontra na estrada para o golo. De resto, o conceito de distância é independente do perigo que representa, porque tem soluções para desestabilizar o adversário a partir de qualquer ponto do terreno. E apesar de suscitar, quase em exclusivo, sensações vertiginosas, age como todo o grande jogador: nunca tem pressa.
Não é um habilidoso de quem possamos esperar a fantasia dos predestinados; não tem a magia dos génios que deslumbram com truques surpreendentes, mas já assinou obras-primas pela arte de conjugar elementos tão lineares como técnica, sentido de orientação, coordenação motora e condução prodigiosa. Está longe de ser um milagre genético, à altura de Nani, Quaresma ou Gaitán, mas é um puro-sangue transformado noutro jogador. Longe vai o tempo daquele jovem imaturo, cuja leveza perante o erro era indigna de tão grandioso talento - esperar pela inspiração trabalhando como operário é a obrigação dos craques. Para Carrillo, se as musas acordavam a tempo, muito bem; se adormeciam, reduzia-se à insignificância de um fantasma que, na maior parte dos casos, servia para quase nada.
Em quatro épocas no Sporting, cruzou-se com seis treinadores - Domingos, Sá Pinto, Vercauteren, Jesualdo, Jardim e Marco Silva. Nenhum ficou esmagado pelo jogador que era no fim da adolescência; mas também não houve quem abdicasse da sua presença no plantel. Desde que chegou a Portugal, aos 19 anos, Carrillo viveu montanha-russa entre glória e fracasso; esperança e desilusão; estrela e fraude. Agora que está a consolidar os valores adultos de responsabilidade, experiência, compromisso e sensatez, só precisa de não perder o que de bom trouxe da juventude: sentido de aventura, paixão pelo jogo, ambição e irreverência. No dia em que potenciar todas as qualidades e conjugá-las com regularidade e consistência, não será apenas uma referência do futebol peruano e uma figura da Liga. Será um dos melhores extremos do Mundo.
Danilo a jogar como nunca
No futebol, é vulgar ver jogadores reduzidos a números. Nada mais injusto e desrespeitoso
Danilo custou 13 milhões de euros (um exagero?) mas está a cumprir o que prometeu. Tem as contas em dia. Ao talento natural agregou a moderação que a experiência lhe deu e tornou-se um jogador extraordinário, candidato à seleção do Brasil que, aliás, já representou em onze ocasiões. O ponto de situação relativa ao modo como tem evoluído é fácil: apesar da qualidade de Miguel e Paulo Ferreira, nos últimos trinta anos o futebol português não teve lateral-direito com ele. Está a jogar como nunca: seria titular de caras em qualquer dos grandes tubarões europeus.
Ele tem tudo
para ser craque
Não são aconselháveis os julgamentos definitivos de futebolistas talentosos mas irregulares
Ola John está sempre do contra. Quando junta os cacos de sucessivos desastres exibicionais e se expressa na plenitude, reconquista aqueles que já tinham desistido de encará-lo como grande jogador; quando passa pelo jogo como se estivesse numa peladinha, indiferente às responsabilidades que tem como profissional de um clube como o Benfica, devolve à estaca zero a convicção de quem já se tinha rendido ao seu talento. Depois de gerar consenso de que era um caso perdido, reentrou na corrida pelo onze de Jorge Jesus. E voltou a mostrar, aos 22 anos, que tem tudo para ser uma estrela.
Enciclopédia chamada Kléber
Dominar funções que exigem precisão é arte que, fenómenos à parte, só chega com o tempo
Kléber é, ele próprio, uma enciclopédia de como jogar nas imediações da baliza. Aos 24 anos, domina tudo o que é preciso para cumprir a tarefa de ponta-de-lança. Muitas das qualidades reportam à intuição com que se movimenta no espaço ofensivo; à capacidade para adivinhar acertos de companheiros, erros de adversários e caprichos da bola; ao despertar de sentidos que lhe conferem o papel de perigo público número 1 do seu exército. Raramente se engana nas decisões que toma. Se tudo lhe correr bem, ainda vai a tempo de ser uma estrela da Liga 2014/15. Pelo menos isso.
