Cholo e Jesus
Cholo Simeone e Jorge Jesus. Dois heróis da semana. Dois homens que estão a fazer história nos seus clubes e na Europa. Na última quarta-feira, poucas horas antes da segunda mão da meia-final entre o Chelsea e o meu Atlético Madrid, escrevi uma carta para o grande Simeone, publicada em Espanha, e que ele só iria ler no dia seguinte. Expressei o meu agradecimento por o que ele tem feito pelo clube, acontecesse o que acontecesse frente ao Chelsea. Na quinta-feira à noite, depois da histórica vitória do Benfica em Turim, fiz o mesmo para Jorge Jesus. Aqui fica a minha homenagem a estes dois grandes campeões. Começo por Simeone.
Querido Cholo, não pude ir a Londres porque a minha vida profissional, infelizmente, obrigou-me a ficar em Lisboa. Mas senti logo que podia ser um bom presságio. Um sinal de que estaria à tua espera na capital do meu país para a grande final. No futebol, a memória é muito curta. É nestes momentos, quando estamos a um pequeno passo de conquistar títulos importantes, que todos os colchoneros devem lembrar-se da forma como apanhaste a equipa, em 2011, quando entraste. Estávamos a quatro pontos da descida e tínhamos acabado de ser eliminados da Taça do Rei pelo Albacete, da 2.ª B. O clube era um autêntico caos e os mais pessimistas já começavam a ter pesadelos com o inferno da 2.ª Divisão. Mas toda a intranquilidade desapareceu com a tua chegada. Desde que te sentaste no banco pela primeira vez, os jogadores pareciam outros. Tiveram uma mudança de atitude radical e todos nós sentimos que as coisas iriam ser diferentes. Assim aconteceu. Em dezembro, antes da tua chegada, ninguém poderia adivinhar que, meses depois, estaríamos na praça Neptuno a festejar a conquista da Liga Europa ou a vitória na Supertaça Europeia, em agosto.
Na temporada passada, continuámos a crescer na liga e jamais poderemos esquecer a final da Taça do Rei em que venceste heroicamente o nosso eterno rival no seu próprio estádio. Este ano, então, não consigo encontrar adjetivos para descrever tudo o que está a acontecer. Para mim, já és um dos melhores treinadores da história porque, apesar da diferença abismal de dinheiro para o Barça e para o Real, estamos a duas vitórias de conquistar a liga 18 anos depois, contra tudo e contra todos. Na Champions, acabámos de alcançar uma final 40 anos depois da última presença no jogo decisivo. Cholo, o meu presságio estava certo. Estarei à tua espera na capital do meu país no próximo dia 24. Obrigado por nos fazeres sonhar com o impossível e convertê-lo em realidade.
Querido Jorge Jesus, no final da época passada, quase todos os meus amigos benfiquistas diziam que tinhas de sair. Hoje, esses mesmos amigos têm medo que vás para outro clube. Mas tu não mudaste de um ano para o outro. Continuas o mesmo desde o dia em que chegaste ao Benfica. Um trabalhador incansável, um homem que tem devolvido este clube à glória, em Portugal e na Europa. Os meus amigos benfiquistas mais novos têm uma frase emblemática. Dizem que este é o Benfica de que os seus pais falavam. Tal como acontece no Atlético Madrid, os benfiquistas também não se podem esquecer que, na época antes de chegares, tinham acabado em terceiro no campeonato e caíram logo na fase de grupos da Liga Europa.
Na tua primeira época, em 2009/10, foste campeão e chegaste aos quartos-de-final da mesma Liga Europa. Desde aí tens lutado até ao fim por todos os títulos em Portugal e no estrangeiro. Na última temporada, voltaste a pôr o Benfica numa final europeia 13 anos depois da última. Perdeste com o Chelsea, mas deixaste uma grande imagem. O teu Benfica joga sempre bem, com espírito ofensivo, e nunca desiste. Tal como tu. Só mesmo um grande campeão consegue levantar o moral de uma equipa e de um clube inteiro depois da grande deceção da última temporada, em que perdeste tudo no fim. Reergueste-te, continuaste a trabalhar e esta época conquistaste o teu segundo campeonato no Benfica. E podes ganhar tudo o que perdeste antes.
Há muitas semelhanças entre o teu trabalho e o do grande Cholo Simeone. Na Europa, ambos estão a derrotar equipas que têm o triplo dos vossos orçamentos. O Atlético Madrid eliminou os milionários Milan, Barça e Chelsea. O Benfica venceu o Tottenham e a Juventus. Dentro de campo, foram muito superiores a essas equipas. Fico muito feliz por ter o Atlético numa final e um clube do meu país, que também tive a honra de representar, na outra. Vou receber o Cholo em Lisboa no dia do jogo decisivo da Champions e espero receber-te na mesma cidade, uma semana antes, quando vieres com a taça da Liga Europa. O meu desejo é que a próxima final da Supertaça Europeia seja entre o Atlético Madrid e o Benfica. Tu e o Cholo merecem.
GRANDE CALDEIRADA
O rock de Platini
Na semana em que o Benfica visitou a Juventus para jogar a segunda mão das meias-finais da Liga Europa, Michel Platini voltou a dar barraca. O presidente da UEFA apareceu na capa de uma revista francesa de rock (“Les Inrockuptibles”) abraçado a um músico que vestia a camisola da Juventus. Não era Platini que tinha a camisola, mas podia ter evitado aparecer assim. Todos sabemos que ele é um grande símbolo da Juve, mas antes disso é presidente da UEFA, à qual o Benfica também pertence, e tem de se portar com isenção. A fotografia e o momento escolhido foram completamente inapropriados. Mas, infelizmente para ele, a sua vontade de ver a Juventus na final não passou da capa da revista.
NÓS LÁ FORA
Os portugueses de Madrid
A final da Champions será entre duas equipas de Madrid e realiza-se em Lisboa. Mas não é essa a única relação que o nosso país terá com este jogo. O meu Atlético Madrid e o Real Madrid têm jogadores portugueses que foram estrelas nas meias-finais. O Tiago foi capitão contra o Chelsea e voltou a ser um líder dentro de campo. O Cristiano bateu o recorde de golos marcados na Champions numa só época com os dois que fez em Munique (e já leva 16). Pelo lado dos merengues, ainda temos o Pepe e Fábio Coentrão. Todos eles são portugueses que brilham na Champions e que vão estar no grande jogo de Lisboa.
DO MEU ÁLBUM
O meu amigo Orlando
Esta semana estava a entrar nas instalações da Cofina quando me deparei com uma cara que não via há muitos anos. No princípio ainda fiquei na dúvida, mas, depois, a minha memória foi lá buscar. Era o grande Orlando Dias Agudo. Uma lenda viva do jornalismo desportivo em Portugal. As gerações mais novas não conhecem, mas deixo aqui esta nota para irem procurar o trabalho do grande Orlando. Um campeão da rádio, da imprensa e da televisão. Meu querido Orlando, gostei de te ver. Estás em grande forma. Um abraço deste teu amigo.
