Claques sem bola
Qualquer jogador se desconcentra do jogo ao ouvir uma multidão a cantar monocórdica. Qualquer jogador se sente próximo de peça mecânica se os movimentos dentro de campo não têm reflexo na reação da bancada. A equipa ataca e o som mantém-se. A equipa defende e o som é igual. A equipa afinal não faz ali falta nenhuma. É um mero pretexto para demonstrações de força?
As claques que entoam cânticos constantes sem consonância ou mera relação com a emoção do relvado – cantam qual horda antes do ataque – prestam um péssimo serviço à sua própria equipa. Não está em causa o amor e empenho que, certamente, as claques de FC Porto e Sporting têm pelos equipas que suportam. Mas os seus membros já deviam ter notado a relação de causa efeito entre cânticos, que podiam estar a ser entoados ali, no estádio, ou no alto de uma colina campestre, e o mau futebol coletivo em que sobre esses tons as equipas caem.
Para os futebolistas o som da bancada é como uma banda sonora, que a cada momento o avalia e empurra para mais ainda. O natural na equipa da casa é que o rumor vá subindo à medida que se desenha o ataque. O natural num jogador da casa é que um detalhe, receção, drible, bom passe, tenha como recompensa um aumento de vibração na bancada. Essa é a essência do artista. Esse é o reconhecimento do jogo.
Cânticos que podiam seguir os mesmos ritmos sem atletas na relva, que esquecem jogadores e bola. Cânticos da multidão para si mesma, podem ser desafios ou sublinhados de poder. Podem levar à motivação de quem os entoa. Mas não empurram a equipa para a vitória.
Em Alvalade e no Dragão os da casa venceram apesar do autismo das suas claques. E não, como é norma, graças à força que delas emana.
