Classe na sala das máquinas
Se a bola pensasse já devia saber as três regras que a orientam nos pés de Miguel Veloso: não ficará ali muito tempo (joga a um ou dois toques); a viagem será rápida (o passe é tenso); acabará numa zona com pouca gente (é especialista em espaços vazios).
1 - César Menotti, treinador campeão do Mundo pela Argentina em 1978, divide os médios-centro em cães de guarda e cães assassinos. Uns defendem a casa, afastam os assaltantes e voltam ao posto de vigia; os outros são tão ferozes a perseguir os invasores que abandonam o local e às vezes deixam o portão escancarado. Miguel Veloso pertence ao grupo dos que dimensionaram a função: é um segurança que zela pelo quarteirão inteiro, fruto de criteriosa ocupação do espaço e de um bom manejo de geometria e tempos do jogo. Aliás, se a bola pensasse já devia saber as três regras que a orientam nos pés dele: não ficará ali muito tempo (joga a um ou dois toques); a viagem será rápida (o passe é tenso); acabará numa zona com pouca gente (é especialista em espaços vazios).
2 - Miguel não tem jogo de cabeça para se impor nas duas áreas (como Javi García); falta-lhe intensidade (que sobra a Fernando); revela pouca confiança para o jogo longo (nunca será Xabi Alonso); e, por temperamento, recusa elevar a voz para comandar as tropas (fora de hipótese ser um Gerrard). Mas é excecional a fazer evoluir as equipas que representa para comunidades civilizadas, dispensando muito do trabalho sujo que imperou durante anos. Está a anos-luz de outros que fizeram carreira e foram glorificados apenas por serem bons empregados de limpeza, que varriam a zona e afugentavam os inimigos, mesmo que acabassem por ser inúteis depois da casa arrumada. A sua principal qualidade, para lá de entender as chaves coletivas do futebol, é dominar a vasta cadeia de acontecimentos que está adjacente ao funcionamento da equipa.
3 - Se tiver de jogar com William Carvalho na Seleção, ou seja, se Raul Meireles não recuperar, Miguel ver-se-á na contingência de agir perante o jovem leão na mesma lógica com que Xavi se entende com Busquets ou Pirlo se comporta com Pogba: para dividir o espaço no sentido da complementaridade funcional e não da sua sobreposição. Não será fácil, em tão pouco tempo, adquirir todas as rotinas, mas não é impossível consolidar a adaptação a funções distintas. De resto, para ser fiel à sua história e ao peso social que exerce sobre as sociedades que o suportam, o futebol pode prescindir de muitas qualidades, algumas erradamente consideradas de primeira necessidade. Menos de uma: a inteligência.
4 - O ar pesado, o estilo preguiçoso e a indolência de que é acusado escondem um jogador ágil a pensar, rápido a decidir e que abrevia passos no processo de construção. A velocidade, tem-na guardada no cérebro prodigioso, que lhe permite antecipar decisões dos adversários, roubar-lhes iniciativa e agir logo em conformidade: introduzir a pausa, se a ideia é guardar a bola num cofre-forte, ou acelerar a manobra pela precisão de passes verticais que atingem o antagonista onde mais lhe dói. Na sala de máquinas, onde o jogo se define e tudo é permitido em nome da eficácia; onde deixou de haver limites para tresloucadas ações que promovem toda a espécie de choques e grosserias, o futebol tem valorizado discernimento, visão, técnica e elevação. Em suma, deteta logo os jogadores de classe. Miguel Veloso é um deles.
Não há central mais goleador
Os tempos de recordes na Seleção Nacional não são um exclusivo de Cristiano Ronaldo
Bruno Alves marcou ao México o décimo golo por Portugal. O número é impressionante, qualquer que seja o ângulo pelo qual queiramos analisá-lo. Para medirmos a relevância do feito, 10 golos marcaram Rui Águas e Sá Pinto, mais um do que Domingos e três do que Manuel Fernandes. Bruno é herdeiro de dinastia ilustre: Fernando Couto (8 golos), Humberto Coelho (6), Frederico (5), Ricardo Carvalho (4). É o central mais concretizador de sempre da Seleção Nacional, feito que lhe confere estatuto relevante no grupo. E ainda há muito caminho pela frente.
Raul Meireles serve para tudo
Mas não se resume ao enorme feito de Bruno Alves a ideia de que se está a fazer história
Raul Meireles, quase em segredo, já é o médio-centro mais goleador de sempre da equipa das quinas. Tirando Rui Costa, que atuava uns metros à frente e com funções mais criativas (era um 10 puro), o médio do Fenerbahçe já deixou para trás muitas estrelas eternas a quem associamos a imagem do golo. Os 10 tiros certeiros superam os 8 de Coluna, Carlos Manuel e Oceano; os 7 de Maniche; os 6 de Travaços; os 5 de Deco e os 4 de Jaime Graça e Petit. Não tanto por isso, embora os números não enganem, parte do sucesso de Portugal passa pela recuperação de um médio que serve para tudo.
Fábio no miolo é uma hipótese
Era impossível adivinhar a surpresa que Paulo Bento guardara para o jogo com o México
Porque nada acontece por acaso, passa a ser uma probabilidade, mesmo que distante, ver Fábio Coentrão no miolo como interior. O campeão europeu já tinha sido utilizado a médio por José Mourinho, que aí o experimentou na pré-época de 2011/12. Mas, então, o seu enquadramento não foi tão generoso para os envolvimentos ofensivos. A experiência serviu para mostrar que, afinal, em vez de seis médios (Miguel, William, Moutinho, Amorim, Meireles e Rafa), o selecionador entende que tem sete. E que Coentrão, confirmando ser um enorme jogador, é a lateral-esquerdo que joga melhor.
