Opinião

Emanuel Macedo de Medeiros Fundador e CEO Global da SIGA

Confiança: o capital silencioso do futebol

Adicione como fonte preferencial no Google

Começa hoje o Campeonato do Mundo de Futebol.

Durante as próximas semanas, milhares de milhões de pessoas acompanharão os mesmos jogos, discutirão os mesmos lances e viverão as mesmas emoções. Num mundo cada vez mais fragmentado por conflitos, polarização, algoritmos e uma competição permanente pela atenção, este é um fenómeno notável.

Poucas instituições conseguem ainda reunir pessoas de diferentes continentes, culturas, gerações e sensibilidades em torno de uma experiência verdadeiramente comum. O futebol continua a consegui-lo.

O Campeonato do Mundo tornou-se um dos raros acontecimentos verdadeiramente universais do nosso tempo. Poucos fenómenos conseguem mobilizar simultaneamente tantas pessoas, em tantos países, durante tanto tempo.

Mas a dimensão do futebol não pode ser explicada apenas pela sua popularidade ou pelos milhões que gera. A sua verdadeira singularidade reside noutra coisa.

Ao longo de mais de um século e meio, o futebol conquistou algo que muitas instituições, públicas e privadas, lutam hoje para preservar: confiança.

Milhões de pessoas investem tempo, emoção e recursos no futebol porque acreditam numa premissa simples: aquilo que acontece dentro das quatro linhas merece ser acreditado.

Acreditam que as regras são conhecidas e aplicadas. Que a competição é legítima. Que o mérito continua a desempenhar um papel decisivo. Que as instituições existem para proteger o jogo e não para se apropriarem dele.

É esta confiança que transforma uma modalidade desportiva numa instituição global. Que sustenta audiências, atrai investimento, mobiliza patrocinadores e gera valor económico. Que permite ao futebol atravessar fronteiras como poucas outras atividades humanas.

A confiança é o capital silencioso do futebol. Invisível na maior parte do tempo. Mas impossível de ignorar quando falta.

Sente-se quando surgem dúvidas sobre a integridade das competições. Quando a transparência dá lugar à opacidade. Quando os mecanismos de supervisão falham. Quando os interesses particulares se sobrepõem ao interesse coletivo.

Nestes momentos, torna-se evidente uma realidade muitas vezes ignorada: a integridade não é apenas uma questão ética. É uma condição de sustentabilidade.

Corrupção, lavagem de dinheiro, evasão fiscal, manipulação de resultados, conflitos de interesse ou má governança não são apenas problemas reputacionais. Constituem riscos sistémicos para a credibilidade do futebol e para o valor social e económico que dele depende.

Durante demasiado tempo, a integridade foi vista sobretudo como resposta à crise. Mas a experiência demonstra o contrário. A confiança não se reconquista no momento da crise. Constrói-se muito antes dela.

Há cerca de 2.500 anos, Sun Tzu observou, e bem, que as batalhas são vencidas antes de serem travadas. O mesmo acontece no desporto. A integridade mede-se pela qualidade das decisões, das regras, dos mecanismos de controlo e da cultura institucional que ajudam a prevenir os problemas antes de eles surgirem.

É por isso que a integridade deve ser entendida como infraestrutura. Tão essencial para o futuro do futebol como os seus atletas, as suas competições, os seus adeptos ou os seus modelos de negócio.

A confiança não se decreta. Conquista-se.

E, no desporto, conquista-se todos os dias — através de decisões transparentes, liderança responsável e compromisso real com os mais elevados padrões de integridade.

É precisamente esta convicção que está na base do trabalho da SIGA.

Se a confiança é o ativo mais valioso do desporto, a integridade não pode depender apenas de boas intenções. Tem de assentar em princípios claros, padrões reconhecidos e mecanismos credíveis de implementação, verificação e certificação.

Foi com esse propósito que a SIGA desenvolveu os seus Standards Universais sobre Integridade no Desporto e o SIRVS (SIGA Independent Rating and Verification System): transformar compromissos em resultados demonstráveis e reforçar a credibilidade das organizações desportivas.

Porque, num setor em que a confiança é essencial, a integridade não deve ser apenas proclamada. Deve ser demonstrada, medida e verificada.

O Campeonato do Mundo que hoje começa produzirá novos campeões. Mas a verdadeira vitória do futebol mede-se por algo mais simples e mais valioso: a confiança que continua a merecer.

Espaço semanal da responsabilidade da Sport Integrity Global Alliance

Deixe o seu comentário

Pub

Publicidade