Contra uma política de terra queimada

Fui presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar do CF ‘Os Belenenses’ entre 2005 e 2008. Período difícil que incluiu o falecimento do presidente da Direção, homem bom e profundamente comprometido com o clube e a eleição de uma nova direção, e um presidente incompetente e de cuja honorabilidade tive, e tenho, as maiores das dúvidas.

Esse presidente, por seis breves meses, tomou a mais leviana das decisões (e que ainda hoje é uma das questões mais decisivas para os acontecimentos que vivemos): impôs um contrato de empréstimo junto do BANIF (Oitante) de 5 milhões de euros e aprovou-o, sem o parecer legal necessário do CFD, em AG de sócios, com mais de 95% de votos. Nessa sequência, e tendo sido um dos poucos que votaram contra tal heresia financeira, apresentei a minha demissão, no que fui acompanhado pelos restantes membros do CFD. Apesar de passar a ser então membro vitalício do Conselho Geral não mais participei em nenhuma reunião. Continuei a ser associado e adepto presente nos jogos do futebol profissional, até que desde há um ano deixei de ir ao estádio porque o ambiente hostil entre os órgãos sociais do CFB e a SAD me era insuportável. Passei a assistir de cachecol, mas na TV.

Gerir um clube desportivo eclético como o CFB e deter uma SAD para o futebol profissional exigia reconstruir um projeto desportivo com diferentes bases de sustentação, mais profissionalismo, mais pragmatismo, e um projeto social de fomento e participação desportiva não profissional, de vida saudável, de humanismo, que capitalizasse o mercado de praticantes e aderentes ao desporto de competição não coberto pelas lógicas fortes, mas redutoras, dos dois outros grandes de Lisboa.

As suas sucessivas direções e parte dos associados pensaram que nada tinha mudado, que a história do Belenenses era suficiente para afastar escolhos, decisões impotentes e/ou mal informadas. Pensaram também que vender a maioria da SAD a uma empresa privada na sequência do falhanço total do CFB em resolver o empréstimo desastroso ao BANIF, e das quedas da equipa profissional de futebol na 2.ª Divisão, era uma pequena coisa e bastava votar outra vez que a SAD sucumbiria aos apelos. E não foi assim. Não votei a venda da maioria da SAD, não aprecio o perfil do acionista maioritário, e não conhecendo Rui Pedro Soares, não lhe aprecio o estilo.

Mas dizer que a SAD e o seu acionista é que se portaram mal e o clube e a sua direção são uns santos é um passo que nem os oportunistas mais pintados pensariam dar.

A direção do CFB e parte dos seus associados não acharam melhor que, depois de vender a maioria do capital da SAD e perderem por unanimidade uma ação de reconhecimento em Tribunal Arbitral dos direitos de recompra dessa maioria (porque manifestamente tudo tinham feito para perder esses direitos), conduzir uma política de terra queimada. Ao estilo negativo da SAD responderam de forma inconsequente, sem programa desportivo e económico. A lógica saudosista dos bons tempos do Belenenses pode estimular assembleias e discussões nas redes sociais, mas é incapaz de responder aos desafios que o CFB hoje tem e muito menos às mudanças profundas da gestão desportiva e financeira que os clubes comportam.

Esta última decisão de começar uma equipa na 1.ª Divisão da AF Lisboa (sexto escalão), dizer que em cinco anos se voltará a estar na 1.ª Liga e depois é que vão ver o que é o verdadeiro CFB, é algo tão ridículo que quase custa a acreditar que pessoas experientes possam sequer aceitar tal como hipótese, quanto mais como plano de ação.

Tenho as maiores das dúvidas que os protagonistas do CFB e da SAD me possam ouvir, mas não consigo senão fazer um apelo ao bom senso. O CFB tem quase 100 anos, mas destruir a sua história pode não ser assim tão difícil se a sequência de decisões desastrosas prosseguir. Basta olhar com atenção para outros exemplos e ver que a grandeza se constrói nos tempos difíceis, não se faz com sentimentos primários mas com a convicção serena e segura de, honrando a história, ser preciso construir uma solução associativa, financeira e desportiva exequível porque o tempo para aventuras não existe.

12.07.2018